Há um ano…

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Que bom churrasco tem dado a encheção de lingüiça dos BRIC, meu caro Alcir (aqui). Mais uma vez recordamos para viver e, apesar de diversas críticas e perspectivas negativas, levanta-se uma voz uníssona no mundo emergente em meio às lamúrias do mundo decadente. As principais economias da dita porção rica do globo estão em crise, de sorte que nas filigranas desprendidas desse ordenamento confuso possam os BRIC costurar seus próprios ornamentos. Esse grupo econômico, cada vez mais fortalecido, pode se configurar como um importante “global trader”. (Confiram esta análise)

Ora, ressalta-se que os BRIC se tornaram um modelo para todas as economias subdesenvolvidas: eles se apresentam como referência e objeto de comparação, como é o caso do que se tem chamado de expansão dos “leões africanos”. Oito países da África – Argélia, Botsuana, Egito, Líbia, Ilhas Maurício, Marrocos, África do Sul e Tunísia -, de acordo com a consultoria Boston Consulting Group (BCG), têm experimentado um crescimento econômico equiparável as principais economias emergentes, abrindo a possibilidade de orquestrarem um grupo semelhante aos BRIC.

Mas não é para menos que os BRIC estão tão na moda assim. Depois da Cúpula deste ano, realizada no Brasil, os países caminham a passos largos para o aprofundamento da complementaridade de suas economias. Estabeleceu-se um documento de cooperação técnica entre os bancos fomentadores do desenvolvimento entre os quatro países, podendo, por exemplo, um projeto brasileiro ser desenvolvido na Índia receber financiamento do BNDES e do banco indiano. Ademais, procurou-se avançar na conformação de projetos de infra-estrutura e de tecnologia avançada (como exploração espacial e nanotecnologia) e até se prevê a realização do (suspeito) comércio entre eles na própria moeda nacional, sem a intermediação do dólar ou euro, proposta do presidente russo, Dmitri Medvedev. O grande desafio será enfrentar a demanda energética, sendo que os BRIC são responsáveis pelo crescimento de 58% da demanda mundial por petróleo.


Guido Mantega, ministro da Fazenda do Brasil, afirmou que os BRIC representarão dois terços da economia mundial nos próximos cinco anos, superando o um quarto que hoje representa. No mesmo sentido, o FMI calcula que entre 2000 e 2008 os BRIC foram responsáveis por quase 50% do crescimento mundial, mas estima que esse número chegará a 61%. E, aliás, por falar em Brasil, que tal essa de documentos oficiais dos Estados Unidos que consideram que os BRIC não têm o B? Ou seja, não tem o Brasil. A estratégia norte-americana considera o Brasil como um “parceiro importante”, de “influência crescente”, ao passo que percebe a Rússia, a Índia e China como “centros-chave de influência”.

Isto não passa de discurso retórico. Vide a ALCA, por exemplo, os norte-americanos não cogitam uma área de livre-comércio sem o Brasil. Causalidades recentes, sobretudo o caso iraniano, é que precipitou a análise norte-americana. Recentemente, o IBGE divulgou que o PIB brasileiro cresceu 2,7% no primeiro trimestre de 2010 em relação ao quarto de 2009. Em números absolutos, o Brasil cresceu 9,0%, quando comparado com o primeiro trimestre de 2009, perdendo apenas para a China, cujo crescimento foi de 11,9%. Em terceiro lugar, vem a Índia (8,0%) e, em quarto, a Rússia (4,5%). (aqui) Por coincidência, são os BRIC, e com B. Assim como o B também está presente em outros campos. Diz-se, por exemplo, que uma nova diplomacia multilateral está se conformando, sendo o Brasil um de seus grandes articuladores.

Ainda que nascida em círculos comerciais, essa diplomacia alcança os domínios da política. Talvez até aquela forneça um importante substrato a esta. A Newsweek desta semana, curiosamente, trazia como reportagem de capa “Is this the future? American power and its limits”, discorrendo sobre a mediação turco-brasileira no caso iraniano. Friedman se lascou em seu pessimismo infundado sobre os desdobramentos da negociação nesse caso. Retornando à esfera do comércio, em síntese, nota-se que os BRIC estão se fortalecendo e que, sem o B, o churrasco não se completa!


Categorias: Brasil, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


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