Há um ano...

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Foto: The independent (tirada do documento Levelling the playing field)

E o prêmio combustível fóssil do ano vai para…

 

Há quase um ano, delegações de todo o mundo se reuniam em Copenhague, Dinamarca, para a COP-15. Foi um festival diplomático, os líderes mundiais mais importantes estavam presentes no encontro que começou com a alcunha “Hopenhague” (Copenhague da esperança) e terminou como “Nopenhague” ou “Brokenhague” (Copenhague sem avanços).  

Em seqüência, foi programada a COP-16 em Cancun, México. Como uma forte ressaca, assim poderia ser descrita a nova reunião. Poucos líderes políticos se aventuraram em repetir a peripécia do ano anterior. As feridas da COP-15 ainda estão abertas e poucos são os indícios de avanços expressivos. Inclusive, o verdadeiro sentimento é que mais plausível seria remontar as negociações com vistas a um acordo para a próxima COP, a se realizar na África do Sul.  

Para Cancun pouco se falou em esperança. A ambição excessiva de Copenhague criou uma expectativa irreal. Muitos chegaram a acreditar que um pacote abrangente e consensual era, de fato, uma realidade em nosso horizonte. A COP-16, ao contrário, pode ser um sucesso. Não há mais 100 chefes de Estado nas discussões, um acordo “tudo ou nada” ou temas espinhosos na agenda principal. Talvez o ponto principal de Cancun seja a agenda com temas minoritários, ainda que abrangente, com o objetivo que re-fundar uma base sólida para um acordo nos temas prioritários.  

Faz sentido, não? Uma conferência dominada por órgãos técnicos, começando por temas básicos antes de partir para os menos consensuais, e, acima de tudo, sem tantos líderes mundiais que realmente pouco tem a colaborar nesses momentos. Desta forma, uma vez o que o acordo se torne uma realidade, faltando somente a ratificação política, haverá o espaço para os chefes de Estado convergirem em um encontro para confirmar o que já está acordado. Afinal, onde a negociação política é mais importante que a técnica, sobra retórica, palavras vazias e compromissos inatingíveis, tudo que vemos nos organismos multilaterais na atualidade.  

No campo político seguimos o mesmo jogo. O Japão ameaça recusar a renovação do protocolo de Kyoto; os Estados Unidos defende um pacote completo ao passo que o Brasil vê temáticas faltantes em tal pacote; países em desenvolvimento recusam a proposta dos desenvolvidos; a União Européia é criticada pelo representante brasileiro por sua falta de liderança; entre tantas outras tratativas diplomáticas e declarações para mídia internacional. Por detrás do campo midiático, as comissões e delegações técnicas seguem trabalhando em pequenos avanços, restaurando a confiança para o consenso futuro em um acordo completo – incluindo fundos para os países menos desenvolvidos, redução de emissões, mecanismos de desenvolvimento limpo, mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, entre outros.  

Como amplamente divulgado, são os países menos responsáveis por emissões que menos influenciam os rumos das negociações. Somente a delegação do Brasil, por exemplo, é maior que as delegações de todos os países da “Aliança de Estados em Pequenas Ilhasjuntos. A capacidade de negociação e representação fica polarizada nos maiores players. Dessa maneira, a importância de um consenso entre estes países é cada vez maior, podendo ditar o rumo dos mais vulneráveis às mudanças climáticas. A sociedade civil tenta levantar as vozes dos pequenos, mas a decisão verdadeira estará nas mãos das principais potenciais, como em qualquer discussão na comunidade internacional.

A esperança é que ao invés de distribuir os prêmios de maior poluidor per capita, país campeão em combustíveis fósseis e maior desmatamento do mundo; logo se possa entregar prêmios como: política energética mais limpa, melhor tecnologia de seqüestro de carbono e país mais progressista em termos de sustentabilidade. O dia seguinte a ressaca tende a ser mais positivo, esperamos que assim seja nas negociações climáticas também.  


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