Há um ano...

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Há um ano, o assunto mais comentado no blog (e na mídia em geral) era a ascensão da “Primavera Árabe”, especialmente na Tunísia e no Egito. O dia 11 de fevereiro se tornou um marco internacional com a queda de Mubarak, responsável por décadas de ditadura egípcia, e com o sucesso dos movimentos populares de contestação no país. Um ar de esperança dominava o ambiente internacional e amplas eram as expectativas de renovação.

Neste ano que se passou, contudo, a euforia tem cedido lugar à frustração dos cidadãos, na medida em que a queda de Mubarak não proporcionou também a (esperada) queda dos dois pilares de seu regime: a forte repressão do Estado e o sistema econômico injusto, segundo uma professora de Ciências Políticas na Universidade Americana do Cairo. A data foi comemorada esse ano como um “aniversário sem revolução”, enquanto a forte corrupção e os conflitos políticos assolam o país em meio à (já não tão eufórica) esperança popular por mudanças.

Um ano atrás, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) também lançava seu conhecido relatório Food Outlook, no qual uma grave crise alimentar era anunciada para 2011. De fato, as (tristes) expectativas se cumpriram e o último ano foi marcado por uma situação alarmante no Chifre da África, especialmente na Somália. Devido às secas prolongadas, a crise de fome tem afetado mais de 11 milhões de pessoas nessa região, desafiando as iniciativas das Organizações Internacionais e Não-Governamentais. No início deste mês, foi anunciado pela ONU o fim do “estado de fome” na Somália, mas um terço da população ainda necessita de ajuda urgente e contínua da comunidade internacional.

Enquanto em 2011 nesta época comentávamos ainda sobre as expectativas em relação ao encontro diplomático de Dilma Rousseff com Barack Obama e o reforço das relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, há poucos dias comentamos aqui no blog sobre outra viagem diplomática da presidente. Neste ano de 2012, a presidente foi a Cuba, demonstrando a diversificação diplomática do governo e o reforço para a construção de uma agenda cada vez mais multilateral. Novo ano, novas perspectivas?

Por fim, um último importante fato comparativo entre 2011 e 2012 merece atenção: o Conselho de Segurança da ONU e seu polêmico e persistente sistema de veto. Há um ano, os Estados Unidos assumiram seu apoio a Israel e vetaram – contra o posicionamento geral – o projeto de resolução que condenava a política israelense de construção de assentamentos nos territórios palestinos ocupados. Neste ano, mais uma vez o veto foi utilizado em situação polêmica – e também contra o posicionamento geral, especialmente estadunidense – só que desta vez por China e Rússia. Aliadas da Síria, estas potências demonstraram-se, por sua vez, contrárias à resolução que indicava a necessidade de renúncia de Bashar al-Assad.

Ambos os vetos foram justificados como “ingerência nos afazeres internos”, mas ambas as situações demonstram claramente que este argumento só é acionado quando se encontra em consonância com os interesses envolvidos. Situação previsível, apesar de demonstrar uma das mais claras fraquezas de nosso sistema internacional contemporâneo. Passa ano, entra ano e, afinal, existem coisas que parecem não mudar nunca…


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