Há (quase) um ano

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Este é um post diferente – não é um “Há um ano” propriamente dito, mas se escora num texto de março de 2010. Em “O mundo dá voltas”, abordávamos a questão da governança analisando o caso das eleições do Iraque e do (então) recente terremoto no Chile. O primeiro caso era um surpreendente caso de “despertar” político enquanto o segundo era o oposto, a decaída de uma sociedade relativamente estável no caos por conta de um evento extremo.

Parece muito apropriado trazer essa questão novamente com o drama do Japão. No caso, poderíamos traçar um paralelo quanto à reação dos cidadãos face à tragédia – talvez não caiba comparar a escala dos desastres, mas algumas de suas implicações. No Chile, houve muito caos, saques e crimes. No Japão, até onde se sabe, parece estar havendo mais organização e um admirável auto-controle de seu povo. A tristeza é contida, mas o pânico parece ser mais por conta dos estrangeiros. Talvez por causa dos japoneses estarem “acostumados” às tragédias assim (lembrem-se que mesmo a contaminação nuclear eles já conhecem muito bem…), somando-se à sua costumeira disciplina, enquanto no Chile o pânico era fruto da escala inédita do desastre. No Japão, o temor do desabastecimento faz os produtos sumirem das prateleiras – mas não há saques; são todos comprados, e parece que se tenta seguir um rumo comum da vida, o quanto antes, em meio à devastação.

Por outro lado, há coisas que não mudam. Nem vamos entrar nos méritos da questão líbia, em que a esperança de uma revolução legítima contra o ditador Kadafi parece cada vez mais fadada ao destino da guerra civil e sem prazo pra ser resolvida. Outros casos dramáticos estão se desenvolvendo à sombra da tragédia nipônica – especialmente na Costa do Marfim e no Sudão. O primeiro está à beira de uma sangrenta guerra civil, com protestos pacíficos sendo reprimidos e operações militares sendo realizadas contra o presidente que não que largar o osso Gbagbo. Já no segundo, o processo de independência do sul parece cada vez mais atrapalhado e conturbado por escaramuças, problemas na província de Abyei (cujo plebiscito de intgração ao sul ou ao norte está suspenso indefinidamente) e o eterno caos de Darfur. Na África, a política dificultada por questões tribais e étnicas e temperada pela ganância internacional parece seguir um rumo pré-definido, em que sempre ficam em desvantagem a segurança e a paz de seus habitantes.

Se no ano passado podíamos afirmar que em termos de governabilidade o inesperado pode surgir de tragédias, os fatos recentes mostram que, via de regra, as conseqüências podem ser bastante previsíveis, para o bem ou para o mal…


Categorias: África, Ásia e Oceania


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