Guerra sem fim

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Nos idos de 2003, eu estava no colegial e uma das minhas ocupações de intervalo era (vai entender…) ir à biblioteca e debater com alguns colegas as notícias do jornal do dia. O tema recorrente e que mais rendeu conversas animadas foi, claro, a invasão dos EUA ao Iraque naquele ano. Era primeira vez que para nós, aquele pessoal da geração do fim dos anos 80, se via todo o poder militar dos EUA em ação efetivamente (na I Guerra do Golfo éramos muito novos), e a conclusão era unânime: os EUA iriam destroçar tudo e acabar com a guerra em questão de semanas. O tempo foi passando, vieram as baixas, o “fogo muy amigo”, a tenacidade dos iraquianos, e no fim das contas todo mundo envolvido nessa conversa já terminou a universidade e a guerra foi acabar apenas na semana passada, com a transferência da posse do último quartel dos EUA no país para forças locais, e a saída definitiva dos últimos contingentes no dia 31 de dezembro.

Traçar conseqüências desses nove anos de ocupação é algo complicado e que vai demandar muito tempo – mesmo por que os efeitos, na região e no mundo, ainda vão reverberar por muitos anos. Afinal, o que deu errado para os EUA? Passar por cima da ONU (tornando a guerra impopular em qualquer lugar que não fosse os EUA)? A demora em encontrar Saddam? Ou em encontrar as tais armas de destruição em massa (que não foram vistas até hoje)? Uma guerra ancorada em mentiras, meias verdades e ignorância não poderia ter outro resultado. Se formos pensar em termos numéricos, foi um sucesso militar, já que morreram cerca de 5 mil norte-amercianos (e algumas centenas de aliados) contra mais de 100 mil iraquianos. A proporção de 1 pra 20 não está nada mal (apesar da maioria desses 20 serem civis que não tinham nada a ver com o conflito, mas enfim…). Mas, um país deixado em ruínas, com um arremedo de democracia imposta, é uma tragédia humana (bem representada nessa charge), bem documentada e do conhecimento de todos, e o saldo principal dessa guerra. Aliás, a guerra acabou para os EUA – mas prossegue o desafio diário de conviver com a incerteza e a morte para os próprios iraquianos.

E nem entramos no tema da incursão do terrorismo no país, coisa que não existia antes e foi uma importação do conflito…

Já na região, o drama é um pouco pior para os EUA. Eles removeram um inimigo em potencial, mas conservador, e conseguiram com isso fortalecer um inimigo declarado e radical, o Irã. O problema é que, desde o começo do século, o balanço de poder na região era uma espécie de triângulo, com a rivalidade entre Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os sauditas toleravam Saddam pois era sunita e mantinha o Irã, radical e anti-monárquico, ocupado – dos males, o menor. Com a saída do seu partido Baath de cena e a ascensão de representantes xiitas, a aproximação do Iraque com o Irã é natural e deixa os sauditas de cabelos em pé. Na verdade, a movimentação na região dá a entender que os países mais interessados em um eventual ataque ao Irã (e que estão fazendo campanha de todos os modos para engatar uma ação nesse sentido) são as monarquias tradicionais do Golfo, e não Israel. Se estamos à beira de um conflito maior na região, no que pese a petulância iraniana em espezinhar a comunidade internacional com suas idas e vindas no programa nuclear, boa parte dessa instabilidade se deve às aventuras de George W. Bush no Golfo e a quebra desse balanço numa das regiões mais instáveis do mundo.

O saldo é negativo para todos, dentro e fora do Iraque – inclusive para o Obama, que tinha a retirada como promessa de campanha e só conseguiu viabilizar isso depois de mais da metade de seu mandato. Mas, vendo pelo lado positivo, pior que está não fica, e pelo menos não é um Afeganistão – intervenção que começou antes, está a todo vapor até hoje e não tem previsão de terminar.


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