Guerra e Relações Internacionais

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A guerra talvez seja o fenômeno mais antigo e o motivador das Relações Internacionais, seguida de perto pelo fenômeno do comércio. Também foram as duas Guerras Mundiais, o gatilho para que as Relações Internacionais desenvolvessem, no início do século XX, as teorias tradicionais, realismo e idealismo, para explicar as interações interestatais. Estes são dois bons motivos para justificar o estudo dos conflitos internacionais. Por isso hoje não vou comentar nenhum fato ocorrido atual, mas trago uma entrevista sobre esse assunto mais teórico por assim dizer.

Se por um lado, quando se fala em guerra pensa-se imediatamente no seu pior resultado, a morte de milhares de pessoas e a destruição de cidades inteiras, por outro, por vezes, se esquece que alguns benefícios que resultam delas.

Analisando-se a História da evolução das guerras, pode-se perceber que muitas das tecnologias utilizadas hoje pela sociedade civil foram desenvolvidas para resolver problemas táticos nos campos de batalha. O Prof. Eduardo Mei, do curso de Relações Internacionais da Unesp-Franca, estudioso da guerra e da estratégia, alega que tal fato passou a ser patente com a Revolução Industrial, que acelerou e multiplicou o intercâmbio entre as tecnologias civis e militares. A partir de algumas questões atuais ele analisa esse intercâmbio e explica como pesquisas desenvolvidas para gerar destruição podem beneficiar a sociedade civil.

ASP: Tem sido amplamente divulgado que o Brasil abriu “licitação” entre empresas da Suécia, Estados Unidos e França, a fim de adquirir novas aeronaves para a Força Aérea Brasileira (FAB) e que tal aquisição previa como necessária a transferência de tecnologia. Em que medida a arte e a tecnologia militares se converteram em benefícios para a sociedade civil ao longo da História? O sr. poderia dar exemplos?

Prof. Eduardo: Desde os tempos mais remotos, grupos de hominídeos em transumância entraram em contato e se envolveram em conflitos. Suas “táticas” de caça aperfeiçoaram-se pela observação de outros predadores, caçadores solitários ou que caçavam em bandos. O fato de Maquiavel recomendar ao príncipe a prática de caçadas é exemplar a esse respeito. Impossível dizer em que momento passa-se a distinguir a caçada da guerra. De fato, muitas vezes a guerra visa “caçar” prisioneiros, escravos, mulheres, crianças. A consideração da atividade militar como distinta das outras atividades e sua atribuição a um segmento específico das coletividades humanas não é comum a todas as sociedades. O intercâmbio entre arte e tecnologia militares e civis só é possível quando essa distinção é nítida, caso contrário nem se trata de intercâmbio. Desde o adestramento de cães e cavalos, o aperfeiçoamento da arte de navegação, comercial ou militar, até o desenvolvimento da tecnologia nuclear esse intercâmbio é evidente. Muito das técnicas cirúrgicas se desenvolveram nos campos de batalha, assim como técnicas de construção – civil em oposição à militar –, de metalurgia e mecânica, bem como a invenção do avião e do submarino. Por outro lado, a letalidade – como opção do aparelhamento militar e policial do Estado – também está disponibilizada à população civil e ao crime. Certamente, a tecnologia militar mais popular entre os civis nos dias de hoje é a internet, desenvolvida a partir de um projeto do Departamento de Defesa dos EUA.

ASP: A Folha de S. Paulo noticiou, no dia 24 de outubro, que Brasil e França teriam fechado acordo para a construção de helicópteros militares EC-725. No entanto, a transferência dessa tecnologia levará 12 anos, de modo que o Brasil só será capaz de produzir sua própria aeronave em 2022. O desenvolvimento de tecnologias militares se dá de forma mais lenta do que as demais? Se sim, a que o sr. atribui esse fato?

Prof. Eduardo: O desenvolvimento de tecnologia, civil ou militar, está condicionado basicamente a dois fatores: investimento em pesquisa científica de base e aplicada e maciços aportes de capital em tecnologia. Historicamente, o Estado exerceu importante papel nas duas frentes, em particular por meio de políticas “mercantilistas”. Além disso, ambos são, numa sociedade capitalista, fortemente influenciados pelos interesses econômicos dos grandes detentores de capital. Não há por parte dos Estados nem desses detentores interesse em transferência de tecnologia, seja para a produção de penicilina seja para a produção de armas. A tendência presumível de quem detém a tecnologia é transferir tecnologia obsoleta – vendendo ao melhor preço, é claro. No caso de tecnologia militar há um agravante, que é a maior ingerência dos Estados soberanos no assunto. Essa ingerência, por sua vez, oscila do intervencionismo absolutista ao liberalismo ingênuo e varia historicamente e de país para país.

ASP: E por último, quais as vantagens estratégicas de se ter um submarino movido a propulsão nuclear? Estamos longe de alcançar esse intento, mesmo com a transferência de tecnologia da França? Esse equipamento viria a atender a demanda por segurança do pré-sal brasileiro?

Prof. Eduardo: Sem dúvida, o submarino nuclear conferiria maior capacidade estratégica e dissuasória ao sistema de defesa nacional, graças a sua maior mobilidade, autonomia, e capacidade bélica. Ao que tudo indica, se a situação econômica se mantiver, isto é, se o crescimento econômico permitir ao Estado brasileiro os mesmos níveis de investimento e capacidade de endividamento, a efetiva incorporação do submarino nuclear não tardará. A grande dúvida gira em torno da definição de “nacional”. Em todos os conflitos militares nos quais o Brasil se envolveu – a maioria internos, diga-se de passagem –, o que os vitoriosos garantiram foi o privilégio que as classes dominantes se reservam de predar o vasto território “nacional” e a população que nele habita. No caso das reservas do pré-sal, sua localização no mar territorial brasileiro e forças armadas com capacidade dissuasória não garantem que a renda daí advinda seja majoritariamente apropriada por nacionais – pois o que assistimos nos últimos anos foi a desnacionalização de parte substancial da indústria brasileira –, menos ainda que corresponda a uma significativa alteração nos dois aspectos do caráter predatório da “evolução política do Brasil”. Ao contrário, nada indica que a estrutura do poder político sofrerá grandes alterações e, assim sendo, não haveria porque a predação deixar de ser nosso cartão de visitas. Assim é duvidoso que forças estrangeiras hostis procurem obter por meio violento o que já obtêm por meios pacíficos.

ASP: A Unasul dispõe de um órgão denominado Conselho Sul-Americano de Defesa, que foi impulsionado pelo atual ministro da Defesa, Nelson Jobim. Segundo este ministro, uma das finalidades desse órgão seria o desenvolvimento de uma indústria bélica para a região. O sr. acredita que o Brasil dispõe de cientistas e de parque industrial adequados para assumir a liderança desse processo?

Prof. Eduardo: No que tange estritamente ao nosso potencial econômico e político, é visível a liderança do Brasil na América do Sul. Todavia, os investimentos em pesquisa e as diligências com vistas à consolidação de estrutura industrial e maior independência econômica deixam muito a desejar. Em outras palavras, a liderança regional não garante uma projeção internacional de grande relevo.


Categorias: Defesa, Paz, Segurança


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