Gritos abafados?

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Estamos acostumados aos protestos no noticiário internacional, especialmente no caso das revoltas do Oriente Médio. A turbulência na Síria continua, com um novo capítulo agora com a presença de um enviado da ONU/Liga Árabe para negociações com Assad. No Egito, a nova Constituição parece ter sido aprovada mas ainda vai render muito descontentamento e protestos por causa de irregularidades no referendo e o teor controverso da lei. Agora, o que espanta mesmo é o que está rolando na Índia, com uma revolta generalizada por causa de um estupro coletivo

Revolta na Índia parece coisa do passado. O país é atípico, se livrou da dominação da Inglaterra com a “desobediência civil”, e por causa do sistema de castas e da religião, não existem protestos por causa da miséria ou coisa do tipo (como foi, por exemplo, nos países da “primavera árabe”). Por isso soa muito estranho esse caso. Após uma jovem ter sido estuprada em um ônibus e espancada até quase morrer, estouram manifestações violentas e multidões tomam as ruas de Nova Déli, cobrando proteção das autoridades. Claro que a polícia revida do jeito que todos nós conhecemos, ainda mais com a visita do presidente da Rússia marcada para essa semana (em que vão fechar acordos milionários para a compra de helicópteros e caças). 

O fato é que a Índia está somando o pior de dois mundos: a população feminina está basicamente encolhendo como na China (pela preferência tradicional por filhos homens, infanticídio de meninas e abortos clandestinos) e o número de estupros está explodindo como na África do Sul (aumento de 875% nos últimos 40 anos!). Isso num país com população enorme e carência de serviços fundamentais para a maioria.  

Existe uma relação entre pobreza e criminalidade, mas no caso do estupro sempre pesa o fator cultural. Na África chega a ser uma arma de guerra, e no caso da Índia parece ser um elemento de reafirmação de identidade masculina (e falta de caráter, diga-se de passagem) ou qualquer bobagem do gênero. Enquanto isso, quem sofre são as indianas, mais uma vez em situação de risco. Por isso chega a ser uma surpresa positiva o fato desses protestos por justiça, em um país que passa a impressão de “acomodação” (com todo respeito à cultura e tradição local) com relação a questões sociais. Não vamos pensar em termos de “revolução”, mas parece que pode estar havendo uma mudança importante para o povo indiano.


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