Golpe ou revolução?

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O Vírus que parece não deixar o Egito…


Durante o regime militar brasileiro há que diga que do governo de Castelo Branco para o de Costa e Silva houve uma espécie de “golpe dentro do golpe”. Ainda com certas ideias de cunho progressistas, Castelo Branco misteriosamente desapareceu em uma queda de avião. Dizem que foi golpe, pois logo após iniciou-se um ciclo de governos “linha dura” que reorientaram os caminhos do regime brasileiro. 

Ora, já há um tempinho que temos comentado sobre o processo de transição democrática no Egito. Os eventos que o Brasil passou durante o regime militar poderia bem servir de lições ou, no mínimo, de base para que a população olhe com cuidado o que tem ocorrido. A despeito de estarmos a dois dias do segundo turno das (tão almejadas) eleições presidenciais no país, as incertezas crescem. E muito delas tem provindo das ações da Junta Militar à frente do governo e das conseqüentes vozes que ecooam dos tempos de Mubarak. A mais recente incerteza veio da decisão unilateral da Suprema Corte de dissolver o Parlamento, alegando inconstitucionalidade. Basicamente, dizem que a constituição vigente alega que 25% dos candidatos eleitos devem ser independentes, sem ligação partidária. E, supostamente, os independentes eleitos tinham ligações com a Irmandade Muçulmana. 

Não surpreenderia se a população egípcia enxergasse semelhanças com o processo brasileiro. A dinâmica do golpe dentro do golpe poderia estar se repetindo. No caso brasileiro, já há pessoas que reclamam o entendimento de 1964 como uma revolução mesmo e não como golpe, pois parte significativa da elite apoiava o movimento. Discussões conceituais à parte, o importante é a ruptura com as demandas que, teoricamente, motivaram o processo. E, da mesma forma, tem seguido o Egito. A demanda da queda de Mubarak e de uma democracia com o jeito egípcio pode estar ficando pra trás pela manutenção da Junta Militar. 

A (in)feliz coincidência (ou não) é que o Parlamento eleito iria elaborar a próxima constituição do país. Resultado: o presidente que vencer no domingo vai trabalhar praticamente com uma carta branca no país. O segundo turno será disputado entre Mohamed Morsi, candidato da Irmandade, e Ahamed Shafiq, o candidato dos militares. Os militares temem um governo muçulmano e a Irmandade busca mostrar um discurso mais moderado para atrair diversas camadas da população (até mesmo pedindo votos porta a porta). De um lado, parte população ainda teme um regime islâmico pela possibilidade da radicalização e acredita que os militares podem tentar derrubar um possível governo de Morsi. De outro lado, teme-se Shafiq por ter tido um cargo significativo nos tempos de Mubarak e pelos receios de uma nova ditadura. E há ainda aqueles que dizem que a possibilidade de outro golpe é igual, independentemente do vencedor das eleições. As incertezas do cenário político continuam a se arraigar

A história do Brasil parece dar alguma luz ao Egito, mas não pode prever os resultados próximos. Golpe dentro do golpe, pelo prisma dos partidários de Mubarak, ou golpe dentro da revolução, pelos otimistas com a Primavera Árabe. Interpretando-se como quiser, a promessa da ditadura no Egito tem vivido à sombra de uma ditadura. E os riscos de o monstro armado por trás dela aparecer são grandes.

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Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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