Globalização?

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“E o povo escolheu a Globo, isso é Globalização”. […] Este é o refrão da vinheta intitulada ‘Samba da Globalização 2010’, veiculada em rede nacional desde o início do ano por essa tradicional emissora televisiva. O samba, de autoria de Arlindo Cruz, Helio de La Peña, Mú Chebabi e Franco Lattari, está em sua terceira edição e foi muito bem elaborado para os seus fins, não se pode negar. O que impressiona, contudo, é a notável capacidade de manipulação da informação e construção de ideologias existente em tempos modernos.

O termo ‘globalização’ se tornou recorrente em nosso vocabulário nos últimos anos, possuindo múltiplas acepções possíveis. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa apresenta este conceito simplesmente como “fenômeno ou processo mundial de integração ou partilha de informações, de culturas e de mercados”. Com maior aprofundamento teórico na área de Relações Internacionais, Held e McGrew (2001) descrevem a globalização enquanto um “conjunto de processos inter-relacionados que operam através de todos os campos primários do poder social, inclusive o militar, o político e o cultural”. As definições podem variar em alguns aspectos, porém costumam se complementar de forma geral. Definir, entretanto, globalização como palavra derivada do nome de uma emissora televisiva e apresentar sua abrangência como escolha do povo, tal como indica o refrão do samba supracitado, deve trazer à tona certa discussão.

Milton Santos (2000), importante geógrafo brasileiro, aprofunda a reflexão neste eixo temático ao expor três possibilidades de se enxergar o processo da globalização. Em um primeiro momento, esta pode ser vista como fábula (“O mundo como nos fazem crer”), em que se nota o papel da máquina ideológica, destacadamente dos meios de comunicação de massa: fantasias repetidas acabam por se tornarem sólidas. Qualquer semelhança com a idéia da primeira frase deste post não é mera coincidência…

Em seguida, tem-se a noção de globalização enquanto perversidade (“O mundo como é”), em que se percebe a situação de desigualdade de boa parte da humanidade que sofre com as mazelas do desemprego e da pobreza. Por fim, vê-se, de forma otimista, a possibilidade de se pensar em uma outra globalização (“O mundo como ele pode ser”) – aquela que valoriza o humano, a consciência e a sociodiversidade na construção da história.

A partir da exposição destes pontos, convém perceber o grande poder de influência do conteúdo veiculado pela TV Globo sobre a população brasileira. Esta emissora possui, visivelmente, uma destacada concentração das atenções populares, da audiência geral e da publicidade, o que a torna um meio cultural de enorme destaque no país. O trocadilho feito com o termo “globalização” apenas elucida a forma como este meio pode atender a interesses específicos. (Um artigo interessante sobre diversidade cultural no Brasil pode ser acessado aqui.)

Para finalizar a análise, pretende-se ressaltar o otimismo de Milton Santos para entender que a globalização atual não é irreversível (em todos os sentidos que o termo possa suscitar). A dissolução de ideologias é possível, mas requer esforços coletivos, evitando-se o conformismo generalizado que parece pairar sobre nossos tempos. Nas próprias palavras de Milton Santos, “devemos nos conscientizar de que o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir. Não há verdades eternas”. Fato.


Categorias: Brasil, Cultura


3 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Realmente, pensar a globalização levanta interessantes questionamentos, especialmente sobre o poder da indústria cultural e as consequências da modernização à vida humana. Vale a pena mesmo discutir estes aspectos e aprofundar as idéias que, por vezes, nos são transmitidas de forma tão parcial, não é mesmo ?!Até mais ! ;)

Mariana Ferreira
Mariana Ferreira

Me preocupa o fato de não ter havido escolha alguma (o povo escolheu?). E de que o debate acima iniciado é possivelmente menos perceptível que o próprio fator "esfera cultural enlatada". Brasil, A globalização, a cultura de massa versus(?) a cultura eruditamente massificada. Em que globo estamos? Interessante, Bia!

Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

belo post Biancaé uma análise que pode ficar ainda mais profunde se pensarmos em outros caracteres sociológicos, mas por enquanto só cito que vejo nisso a inversão de valores: se põe na mente do povo que "globalização" é uma coisa boa, quando em geral pode estar associada a coisas "ruins" (como aquecimento global e epidemias)que ironia