Futebol na África: o melhor e o pior do continente

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Algo que sempre me fascinou foi buscar vínculos entre esportes e relações internacionais. Na maioria das vezes, este exercício exige um tanto de imaginação e outro tanto de adaptação. As intersecções são sombrias na maioria das vezes, apesar da influência de fatores políticas em diversos eventos esportivos. Podemos tomar como exemplo a rivalidade nas Olimpíadas durante a Guerra Fria ou mesmo a tentativa de capitalizar nas conquistas esportivas por governos totalitários. Pode-se inclusive pensar o futebol como um mecanismo de soft-power brasileiro.

Neste fim de semana, chega ao fim a maior competição de futebol entre nações da África. Na final estão Nigéria e Burkina Faso. Apesar das dificuldades já apontadas, o futebol africano é um excelente campo para obter um pouco do melhor e do pior deste continente fascinante. Afinal, quando é que temos a oportunidade de ouvir falar de Burkina Faso? Dentro de campo, os esportistas africanos mostram talento, fato corroborado pelos que jogam nas maiores ligas do mundo. Fora dele, no campo político-social, ressurgem questionamentos antigos.

Algumas histórias são marcadas pela superação, como a Zâmbia (campeã de 2010) que homenageou sua maior geração de futebolistas, vitimada por um acidente aéreo, na véspera da partida final. Outras histórias, no entanto, demonstram um pouco do que o continente ainda tem de pior, como no ataque à seleção de Togo antes da competição também de 2010.  Além disto, em outro exemplo negativo, o torneio deste ano foi obrigado a uma mudança de última hora da sede, a impossibilitada Líbia deu lugar à África do Sul.

Enquanto a Nigéria, finalista no futebol, aproxima-se do posto de maior economia continental e sua ministra de finanças prevê a chegada de nações africanas ao rol dos países em desenvolvimento; as divisões internas, o choque de visões pós-primavera árabe e o avanço do radicalismo ainda apontam para outras necessidades. À medida que melhore sua produtividade, aumente o fluxo de investimentos estrangeiros, intensifique avanços estruturais; a África verá questões mais fundamentais voltarem à pauta mais um vez. Nem a emergente Nigéria escapa de problemas internos, sob a bandeira do Boko Haram.

Neste ano houve ainda uma última coincidência. O Mali, assolado por uma grave crise, disputa na tarde deste sábado o terceiro lugar na Copa das Nações Africanas. Quem sabe o recente bom presságio esportivo, não fortaleça o desejo de o país reencontrar um pouco de estabilidade. Caso torne-se uma distração, características de outras interações futebol-política, poderemos ver mais do que há de pior no continente. O futebol ainda é um pano de fundo interessante, com indícios de grandeza do continente. Torçamos pelo melhor. 


Categorias: África


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