Fujimori: 25 anos de prisão

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Foram 15 longos meses e finalmente hoje chega ao fim o “megajuicio” contra o ex-mandatário peruano Alberto Fujimori. A tão esperada sentença do supremo tribunal peruano condenou o ex-presidente a 25 anos de prisão deixando claro que o considera autor intelectual das matanças de Barrios Altos em 1991 e La Cantuta em 1992, cometidas por um esquadrão do exército conhecido como o grupo Colina, e pelo seqüestro de um empresário e um jornalista. (Para mais detalhes dos quatro casos dos quais foi acusado e sentenciado, acesse o especial do jornal El Comércio Peru.)

Como observadora do caso, posso dizer que já era uma sentença previsível. Só para que tenham uma idéia praticamente três quartos do país, segundo pesquisas, acreditava que Alberto Fujimori seria condenado pelas matanças e os seqüestros. Podendo ser acompanhado ao vivo por todos os peruanos através de sinal televisivo aberto, o longo julgamento transmitido a nível nacional foi um circo, particularmente porque teve de tudo desde o trágico (acusações de crimes e assassinatos) até o cômico (manifestações de tom messiânico populista do acusado em várias oportunidades).

Mas o que cabe destacar aqui é que sem sombra de dúvidas se trata da primeira vez que um ex-mandatário latino-americano elegido democraticamente é julgado por violação dos direitos humanos em seu próprio país. Fato inédito na região, como destaca Jo-Marie Burt, jurista de da Universidade George Mason nos Estados Unidos e observadora internacional nesse processo: “Peru está fazendo história por levar a cabo uma sentença contra um antigo chefe de Estado acusado de graves violações aos direitos humanos” (tradução livre).

Seria muito precipitado de minha parte tomar uma posição favorável ou desfavorável quanto à condenação de Fujimori, fato que levanta e muito os ânimos da população peruana. Porém posso dizer que concordo com o psicanalista peruano Jorge Bruce: “Agora vivemos num país em paz, com crescimento econômico e sem terrorismo ou violência graças a Fujimori (…) mas ao mesmo tempo há tantas provas que se cometeram crimes que creio que muita gente se sente incomodada. Simplesmente ele foi longe demais”. (Trecho retirado e traduzido livremente da coluna de Dan Collyn, BBC.)


Categorias: Américas


3 comments
Carla Diaz
Carla Diaz

Adriana,Justamente aguardava um comentário por parte de um leitor do post em relação a lei de anistia pelos excessos cometidos durante o regime militar no Brasil.É algo a se pensar quanto a forma como cada sociedade se mobiliza em relacao a um período ditatorial e como cada uma cobra diante dos abusos cometidos em nome (no caso peruano) do combate ao terrorismo.Na realidade, seria um excelente trabalho de estudo histórico, psicosocial e político para quem tenha o interesse em tratar o tema: Estudo comparativo da ditatura militar brasileira ao perdao social e do auto-golpe de Fujimori ao castigo penal por violacao dos Direitos Humanos. Fica a dica.Aliás, vi que comenta a opiniao de Jorge Bruce, recomendo um excelente livro dele publicado o ano passado onde retrata o imaginário do racismo na identidade peruana: Nos Habíamos choleado tanto. O problema agora é encontrá-lo nas livrarias do nosso Brasil, talvez daqui a aproximado 2 anos quando terminem a Transoceanica que vai ligar Brasil e Peru. Abraços

Valdemir Reis
Valdemir Reis

Olá estou lhe visitando, parabéns, seu blog é muito bom, harmônico, excelente! Belo post parabéns. Sinto-me honrado e feliz. Confesso que gostei de ter passado aqui. Somos felizes quando contribuímos para a felicidade dos nossos semelhantes. Votos de muito sucesso, de par com os de uma próspera e produtiva semana de trabalho, sucesso, muito brilho, fiquem com Deus. Encontrar-nos-emos sempre por aqui... Aguardo sua visita. Felicidades, muita paz e proteção.Valdemir Reis

Adriana Suzart
Adriana Suzart

Carla,Obrigada por nos brindar com suas impressões e notícias recentes a respeito desse notável acontecimento que foi a condenação do Presidente Alberto Fujimori. A atitude do povo peruano em exigir o julgamento de um governante eleito democráticamente é sinal da maturidade política que vem adquirindo nossa região.Essa pode parecer uma afirmação ingênua quando nos lembramos de governantes como Hugo Chávez e Uribe, por exemplo. Mas se compararmos o que temos agora com o cenário político de ditaduras militares dos anos 60 e 70, a afirmação se torna plausível.E é esse contexto histórico que me faz refletir sobre a opinião do Psicanilista peruano Jorge Bruce. Olhando para o Brasil dessas décadas, fico me perguntando se teriamos conseguido impulsionar nossa indústria nacional ou adquirir novas tecnologias que promoveram o desenvolvimento do país sem a intervenção dos governos militares que se perpetuaram no poder por 21 anos.Por outro lado, as vidas humanas que foram ceifadas, as torturas e perseguições que obrigaram muitos brasileiros com B maiúsculo a deixar a pátria, sem falar do sofrimento das famílias dos desaparecidos políticos, tudo isso é um preço muito alto a ser pago.Espero que a sociedade brasileira, apesar da controversa lei da anistia, encontre alguma maneira, a exemplo da sociedade peruana, de cobrar a dívida humanitária que governantes como Fujimori deixaram em aberto.