Fugir, para onde?

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Lembram do noticiário do Iraque no começo dos anos 2000? Era comum ler manchetes sobre massacres, atentados e dezenas (até centenas) de mortos por dia. E nesse início de década, esse papel é da Síria. Principalmente desde o final do ano passado, o leitor regular deve estar se acostumando com essas notícias de mortes causadas pela repressão (e, é claro, pelos revoltosos) no confronto atual mais sangrento fora da África (por que lá as coisas estão bem piores, é só lembrar do Congo ou da Somália). Mas, se a guerra do Iraque alterou bastante a geografia do poder na região, a da Síria é o elemento para o desastre completo. 

A causa disso tem um nome: refugiados. Não que eles sejam um problema em si (longe disso), mas o seu deslocamento é o que gera reações nos países vizinhos, e aqui mora o problema. Em uma região com governos instáveis ou população dividida, qualquer “desnível” na proporção de certa etnia ou grupo religioso é suficiente pra começar o caos. Até o momento, estima-se que quase 200 mil pessoas já fugiram do país, a maioria para a Turquia. O problema é que o governo turco já está gastando demais com os refugiados (o que nunca é bem visto pela população local) e já não tem mais espaço para acomodá-los. É o mesmo problema que a Jordânia enfrenta, mas numa escala ainda maior, sendo um país menor e com menos recursos, mas que proporcionalmente recebe muito mais refugiados. 

Mas a coisa fica séria mesmo é no Líbano. Primeiro, por que os refugiados estão sendo alocados na região da fronteira com a Síria, que não uma área das mais seguras. Segundo, o fervor político já atingiu a capital, Beirute, que está enfrentando conflitos isolados nos últimos tempos. E terceiro, o Líbano é um país essencialmente dividido. Alauitas, cristãos, sunitas, pró ou contra Assad, tem pra todo gosto. A chegada dos refugiados seria apenas uma faísca estourando um barril de pólvora. Chegou ao ponto de que a guerra da Síria já se espalhou pro Líbano, e não estourou apenas por que, ironicamente, é o Hezbollah (a força irregular que consegue lutar em pé de igualdade com o exército mais bem treinado do mundo, o de Israel) que, sendo  muito superior a todas as demais facções, faz com que os outros deixem de agir. Por enquanto. 

A coisa está tão feia que tem refugiados sírios fugindo até para o Iraque, de todos os lugares! Quando o Iraque está mais seguro que seu país, tem algo MUITO errado. E isso sem pensarmos nas consequências indiretas, como a mudança do poder regional, alianças, e o papel de Israel nisso tudo. Se os protestos no Oriente Médio começaram cheios de esperança em 2011, fica cada vez mais a sombra da tragédia sobre os seus resultados.


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1 comments
Jéssica
Jéssica

EiiiÉ fato que os que mais sofrem com isso tudo é a população em especial os refugiados que fogem de seus lares em busca de segurança e de não morrerem em meio ao "fogo cruzado".Nesse caso da Síria tem se ainda que além dos sírios estarem indo para o Iraque, ainda há os iraquianos que se refugiaram na Síria durante a Guerra no Iraque e que agora estão retornando ao seu país!Acho que um dos grandes receios é que muitos campos estão se prolongando muito, como por exemplo o de Dadaab, no Quênia, (20 anos) e alguns na Palestina.Como não se sabe os rumos de toda essa desestabilização na Síria (se o Assad cai, não cai, se vão intervir, se não vão), os sírios continuarão fugindo e as agências que os ajudam terão mais trabalho para realocá-los.Abraços