Fora da ordem

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Os protestos não param. Nem as reflexões. Para os governos, eles acarretam uma democracia insípida, inodora e incolor; para os analistas, inspirações e contradições que animam suas aventuras intelectuais. Resta claro que o mundo está em transformação. O que não se sabe é para qual direção. Bem resumiria esse momento a enigmática canção de Caetano Veloso: “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.

Mas como (re)ordenar o mundo? Em comum, esta onda global de protestos apresenta um indício: demonstrar o que não se quer e nem se tolera. Ninguém diz o que quer e, se o faz, deixa no ar. Basta ver o Egito, onde ocorreu o maior protesto já registrado na história – entre 14 e 22 milhões de pessoas foram às ruas –, com novo propósito de destituir seu governante, eleito há pouco mais de um ano e após mais de trinta anos sem eleições livres. Resultado: um ciclo de instabilidade político-institucional, com desdobramentos na economia, saúde, educação, etc. Fica o alerta. Para todo o globo. 

Nas últimas décadas, analistas das relações internacionais têm enfatizado dois elementos estruturais que podem desencadear mudanças profundas: uma nova revolução científico-tecnológica e a emersão de uma sociedade mundial. Conhecendo melhor a própria realidade e comparando-a com a realidade alheia, os indivíduos sentem-se estimulados a demandar melhores condições de vida e a se libertar de males que lhes afligem. Ao mesmo tempo, eles se solidarizam com seus semelhantes, questionando não apenas o próprio governo, senão também outros governos. 

Não por acaso, esta eclosão global de protestos coincide com um período de rápida disseminação das tecnologias da informação e comunicação. Nem é coincidência que eles sejam mais robustos nos países em desenvolvimento. De acordo com dados da União Internacional das Telecomunicações, o número de usuários de internet passou de pouco mais de 1 bilhão, em 2005, para uma estimativa de 2,749 bilhões, em 2013. Um aumento motivado, sobretudo, pelo espetacular crescimento desses usuários nos países em desenvolvimento, no mesmo período: de 408 milhões para estimados 1,791 bilhões. É ainda mais surpreendente a elevação global do número de celulares entre 2005 e 2013: de 2,2 bilhões para uma estimativa de 6,835 bilhões, saindo de uma média de quase 40 celulares por cem habitantes para pouco mais de 96. Nos países em desenvolvimento, no mesmo período, o número passou de 1,213 bilhões para estimados 5,235 bilhões (de quase 30 celulares por cem habitantes para quase 90).

As pessoas estão interconectadas. As fronteiras do conhecimento alargaram-se. Com isso, pode estar desenvolvendo-se, em nível inédito, uma espécie de solidariedade mecânica entre os povos. O recado está dado: o empoderamento dos indivíduos se materializa nas ruas e expressa a vontade de participar da resolução dos problemas, nacionais ou globais. E os governos não devem tapar os ouvidos. 

Com uma rápida pesquisa na internet, qualquer um pode se sensibilizar. E se revoltar. Pelas estimativas do Banco Mundial, em 2010, havia mais de 1,2 bilhões de pessoas em extrema pobreza, vivendo com menos de US$ 1,25 por dia, o que corresponde à 20,6% da população mundial. Em termos relativos, a República Democrática do Congo tem o maior percentual de habitantes pobres (87,7%), enquanto, em termos absolutos, quem lidera é a Índia, com 406 milhões (mais de duas vezes o número total de habitantes do Brasil). Elevando-se para US$ 2 por dia, a Nigéria, por exemplo, que é terceira maior economia da África, teria 78,5% de sua população vivendo nessa situação. E, ainda pior, é a porcentagem da população mundial que vive com menos de US$ 10: mais de 80% (na Etiópia, esse índice chega a 99,9%). Em outras palavras, isso significa que mais de 80% da população mundial vive com menos de um salário mínimo brasileiro por mês. 

A concentração de renda é inegável. Tomando-se como exemplo o somatório das fortunas das dez pessoas mais ricas do mundo em 2012 – valor que corresponde a US$ 451,5 bilhões –, se elas fossem um país, seriam a 28ª economia mundial, atrás de Taiwan e à frente da Áustria. Apenas Carlos Slim Helú, magnata mexicano das telecomunicações e líder do ranking, tem uma fortuna (US$ 73 bilhões) que é mais de dez vezes superior ao PIB do Níger, último colocado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2012.

A desnutrição também chama a atenção. Entre 2010 e 2012, 868 milhões de pessoas estavam desnutridas, o que corresponde a 12% da população mundial. A Eritreia lidera essa lista em termos percentuais (65%), enquanto a Índia, mais uma vez, o faz em termos absolutos (217 milhões de indianos estão desnutridos). Esses dados são impressionantes e, entre tantos indicativos, deixam as pessoas estarrecidas e inquietas. Cresce, assim, a percepção de uma cidadania global: antes de ser cidadão do seu país, cada pessoa é parte da humanidade e deve agir em razão dessa condição. 

O mundo está desordenado. Os problemas particulares são, em verdade, problemas globais, inter-relacionados, que exigem respostas também globais, das sociedades e dos governos. Se, no século XX, diria o polêmico Nelson Rodrigues, a ascensão espantosa e fulminante do idiota foi o grande acontecimento, no século XXI, a idiotia deverá regredir. Surgem pessoas cada vez mais informadas, não necessariamente instruídas, com vontade de se tornarem agentes de mudança e guardiães de seu destino e de todos. Quanto mais rápido circularem as informações, quanto maior a persistência de problemas crônicos, maior será o impulso dos indivíduos para fazer alguma coisa. Mais longos e intensos serão os protestos. E maior será a necessidade de (re)ordenar o mundo.

*Post especial do colaborador Giovanni Okado


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