Final feliz?

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Depois de uma sequência de eventos constrangedores – protagonizados por um presidente que foi dormir no poder e acordou fora dele, Manuel Zelaya, um novo presidente que reconhecia plenamente o direito de militares de retirar um chefe de Estado e sua família do poder em trajes de dormir por supostas violações constitucionais, Roberto Micheletti, e uma embaixada que a princípio nada teria a ver com a instabilidade política do país no qual estava inserida, mas que forçosamente tornou-se uma importante peça nesse xadrez político local – essa longa odisseia de Honduras parece estar chegando ao fim.

Um evento que levou aquele pequeno país centro-americano a tornar-se o foco das luzes dos holofotes da imprensa durante quase seis meses teve um possível desfecho anunciado no inicio desse mês. O poder judiciário hondurenho anulou o único empecilho contra a volta de Manuel Zelaya: as acusações de crimes políticos e corrupção. Agora, o terreno está sendo preparado para a saída de Zelaya da República Dominicana e sua chegada a Honduras.

Esses eram os pré-requisitos para a readesão de Honduras à OEA e também foram aqueles necessários para países como o Brasil repensarem um reatamento de relações diplomáticas. Seria esse final feliz que os hondurenhos tanto esperavam? Desfecho para essa história de ex-presidente itinerante, com certeza, pode-se dizer que sim. Mas se esse desfecho era o esperado por todos, é melhor tomar algum cuidado antes de dizer algo.

Agora, é preciso ver bem o que é feliz para cada um dos envolvidos. Para Zelaya, o melhor cenário possível seria sua volta à presidência. Algo que não seria de todo improvável já que o vaqueiro hondurenho já demanda que o movimento que defende sua volta ao poder ganhe status de partido político. Para o atual presidente, Porfírio Lobo, pode ser que a volta de Zelaya traga algumas conturbações, mas pode atribuir um novo ânimo de apoio ao seu governo dessa ala zelayista.

De toda forma, é interessante notar, passado o episódio, que contra muitas expectativas as baixas do episódio produziram uma grande e redonda pizza. O golpe cívico-militar saiu ileso, as eleições para o novo presidente ocorreram e Zelaya manteve-se fora do poder. Essa foi a solução mais conveniente para os países mediadores e para a OEA que prefereria um melhor envolvimento possível. O evento mostra bem os limites das organizações internacionais que, se de um lado aprovam bombardeios militares, de outro, não são capazes de lidar com uma destituição democrática.

Tudo o que dissermos agora será apenas algum tipo de exercício. Se esse é um final feliz ou não é difícil dizer. Porque afinal, a felicidade tem um significado especial para cada grupo envolvido. Felizes para sempre, só em contos de fadas, na política, talvez esse seja o começo de mais conturbações e confusões. Esperemos notícias dos capítulos finais da odisseia de Zelaya.


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