Feitiçaria iraniana?

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Mais de vinte pessoas próximas ao presidente Mahmoud Ahmadinejad foram presas no Irã sob acusação de feitiçaria e de uso de poderes sobrenaturais para colocar planos políticos contrários ao aiatolá Ali Khamenei em prática. Apesar da estranheza dessa frase, trata-se de uma constatação verdadeira para ser acrescentada à lista de polêmicas envolvendo este líder iraniano…

É preciso, antes de mais nada, esclarecer que a organização do regime político iraniano é bastante complexa (sendo que existem algumas autoridades eleitas e outras nomeadas), possuindo ainda a peculiaridade de ser liderada, em última instância, por um chefe supremo religioso nomeado com mandato vitalício – atualmente, cargo ocupado pelo aiatolá Khamenei. O presidente (Ahmadinejad) é a segunda pessoa mais importante na estrutura política, sendo eleito com a função de chefe de governo e de administrar o poder executivo (veja um esquema aqui e leia um pouco mais a respeito aqui). O detalhe é que o chefe supremo tem autonomia para destituir o presidente de seu cargo, caso julgue que este não governa segundo a Constituição do país.

E a polêmica atual envolve exatamente a ameaça do aiatolá Khamenei em destituir Ahmadinejad de seu cargo por conta de divergências internas em relação a cargos políticos estratégicos no governo. Vários aliados políticos do presidente já foram presos sob acusações de feitiçaria contra os interesses nacionais, segundo o líder espiritual. Trata-se de uma dos momentos políticos internos mais críticos do Irã nos últimos tempos (leia mais a respeito aqui e aqui).

Mas de que forma este fato possui relevância para o debate em termos de Relações Internacionais? Bom, não é novidade que o presidente iraniano é bastante polêmico em suas ações de política externa, suscitando desavenças generalizadas. Após negar o Holocausto; sugerir que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram planejados pelos próprios Estados Unidos; afirmar que o poder de veto na Organização das Nações Unidas é satânico, diante das históricas discussões em relação ao enriquecimento nuclear no Irã; ou dizer que Israel iria sumir do mapa (apenas para citar alguns exemplos mais clássicos), Ahmadinejad se tornou uma personalidade muito conhecida e pouco “querida”, por assim dizer, na comunidade internacional.

O impacto para as Relações Internacionais de uma possível destituição de Ahmadinejad do poder é desconhecido e, pelo menos por enquanto, este fato não passa de uma mera especulação. Entretanto, a reflexão acerca dessa possibilidade não deixa de ser válida. Será que a postura do Irã em relação ao Ocidente em geral (e vice-versa) seria diferente sem esta figura emblemática no poder? Talvez essa seja uma das principais indagações a serem discutidas diante desse cenário que envolve desde interesses políticos até acusações de feitiçaria…


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica, Política e Política Externa


2 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Realmente, Raphael, o poder "de verdade" no Irã está muito relacionado ao seu chefe supremo religioso, apesar de esse fato não vir à tona com frequência na mídia.Essa crise interna ainda pode trazer muitas repercussões internacionais, na minha visão. Mais uma vez, é esperar pra ver...Beijos!

Raphael Lima
Raphael Lima

Um acontecimento desse tipo nos faz no mínimo questionar quem detém o poder de verdade no Irã.Poder no sentido de governo pode até ser de Madine, mas a capacidade de influenciar mais pessoas parece residir em outras instâncias não necessariamente ligadas à administração.