Fé derretida

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Você confia nos outros? Uma questão tão simples quanto essa é cada vez mais central para governos, sociólogos e cientistas políticos. É que a confiança nas relações interpessoais e nas instituições tradicionais, muito além de ser um problema cotidiano sem importância, pode ser um dos termômetros que definem quem somos e qual sociedade temos. A falta de fé na honestidade de autoridades, parceiros comerciais, empresários e consumidores já aparece como um dos principais fatores que atravancam o desenvolvimento econômico e democrático de diversos países.

E a confiança tem estado em baixa no mundo todo. Inúmeras pesquisas realizadas em países da União Europeia apontam que praticamente 3 em cada 4 pessoas acredita que a corrupção está impregnada na sociedade. Com ou sem razão, tais níveis de descrença pode ser um verdadeiro desastre para o futuro. A UE tem visto esses resultados como um anúncio de dificuldade econômica. Afinal, a confiança é determinante para os índices de empreendedorismo na sociedade. As relações comerciais dependem principalmente de boas relações interpessoais. E quanto maior a dinâmica das relações econômicas, maior o desenvolvimento.

Mas não só na economia que a crise de confiança age de forma negativa. Há comprovações por meio de pesquisas que ela está ligada também ao aumento da criminalidade, da aceitação de comportamentos nocivos, para a expansão de crimes fiscais e de práticas comerciais abusivas. Em países no topo da escala de desconfiança social, ela também age como promotora de grupos e ideias anti-democráticos, que prosperam em momentos de crise moral e econômica.

Para entendermos os desdobramentos da falta de confiança na sociedade temos que analisar pesquisas recentes, em que ela é igualada ao que foi cunhado de “crise siciliana”. Isso por que a configuração social e familiar dessa região da Itália criou facções tradicionais que defendiam a proteção incondicional aos parentes de sangue, mesmo que isso envolvesse a prática de crimes e de ações desonestas enquanto se relacionavam com o restante da sociedade. Ali surgia o código de honra da máfia siciliana.

E o que isso tem a ver com o momento atual? É que as pesquisas apontam que tal comportamento tende a ser copiado quando vivemos crises de confiança humana. Exemplo disso são pesquisas realizadas pela Confederação da Indústria (CNI), que mostram que 80% dos brasileiros não confiam em ninguém além de familiares. Entre essas pessoas, a crença de que o desrespeito à lei e de que comportamentos oportunistas em relações comerciais sejam aceitáveis é mais presente. Para se ter ideia, 55% desses brasileiros acreditam que crimes leves, como viajar sem pagar a passagem, ou até mesmo a sonegação de impostos, são atitudes pouco nocivas à sociedade.

Mais do que uma forma de proteção diante da corrupção humana, esse tipo de ideal moderno nascido da máfia é válvula para uma separação maior entre as pessoas. Em última instância, até mesmo serve como álibi a práticas indesejáveis.

Assim, podemos dizer que a crise de confiança é também a crise de valores éticos em que uma sociedade foi alicerçada. Não à toa durante as manifestações nacionais, assim como em muitas outras indignações populares que se espalharam pelo mundo recentemente, notamos que a insatisfação generalizada mais do que apontar um governo ineficiente, demonstrou que vivemos uma espécie de crise de tudo. Praticamente ninguém ficou impune à insatisfação e a descrença das ruas. Sejam governos, religiões, meios de comunicação e representações públicas.

Mas nada disso é novidade. A modernidade parece ser o espaço da luta entre os valores éticos tradicionais e as relações interpessoais voláteis, líquidas. Uma espécie de conceito freudiano às avessas, em que a falta de engessamento das práticas e dos aparelhos sociais dão o tom da nossa crise, e não o contrário, como profetizou o pensador ainda no início do século XX.

Não à toa, a falta de confiança estabelece uma corrida legalista por justiça, fazendo com que aja apoio massivo da populações por mudanças nas leis, sempre visando uma maior rigorosidade das mesmas. Em meio a essa turbulência, a defesa da educação como caminho para a mudança social e de valores recentemente alçados a centrais, como o da cidadania, ficam em segundo plano. Nas situações mais alarmantes, até mesmo a democracia corre o risco de retrocesso, ainda mais em países em que a perda da confiança é total, como parece ser o caso da Grécia. Nesses casos, grupos totalitários e contra-reformistas ganham novamente voz, exatamente pelo discurso de esperança do retorno de um “passado” menos incerto.

O renomado sociólogo Zygmunt Bauman, um dos primeiros defensores de que vivemos em uma época única em que as relações humanas e os valores morais colidem, inicia um dos seus livros com a seguinte pergunta: ” Quantos de nós seríamos capazes de seguir um código moral ao pé da letra? E de forma flexível?” O momento atual é caracterizado pela falta de fé na política, nas pessoas e instituições, fenômeno mundial de importância muito maior do que para uma agradável discussão filosófica. Com a grande complexidade que rege o tabuleiro das práticas sociais, a quebra da confiança se apresenta como uma das principais peças que definirão o futuro das relações humanas e das sociedades modernas.


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