Falta de comunicação

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Em mais um capítulo da guerra argentina entre Kirchner e o Clarín, o governo dá um golpe duro no grupo midiático com a pressão para a aplicação definitiva da lei de mídia de 2009, e a direção do conglomerado pede tempo para poder implementar essas mudanças até o começo de dezembro, a deadline da exigência. 

Vamos por partes. Ninguém é santo nessa história, como eu sempre digo quando tratamos de mídia e imprensa. Conglomerados midiáticos são sim grupos que representam interesses políticos e econômicos, em maior ou menor grau, e a imprensa independente é um mito. E nesse quesito, o grupo Clarín beira a um absurdo, com mais de 200 canais de televisão sobre seu controle – e que deverão ser quase todos vendidos segundo a tal lei, que permite que apenas uma emissora de TV por praça para cada empresa de mídia argentina. Pesa ainda o histórico, do grupo que era colaborador da ditadura e aquele processo sobre as acusações rumpeltintskianas de seus diretores terem tomado crianças de desaparecidas políticas. 

Porém, e o outro lado? O Clarín é o único grupo que realmente faz oposição ao governo. Bem ou mal, estão no direito deles, afinal, é da pluralidade que vive a democracia. E a fragmentação da rede de canais de televisão não vai ter nada de democrática – o que não fechar vai ser comprado por preços irrisórios (e muito provavelmente por aliados do governo). 

Há algumas semanas fiz uma postagem que tocou em tema semelhante, com o que acontece no Equador: o presidente Rafael Correa passou uma lei de comunicação que visa retirar o monopólio da comunicação de umas poucas empresas que dominam o setor, e redistribuir em cotas de um terço (para o Estado, grupos privados e comunitários, respectivamente). Porém, isso está sendo feito de uma maneira tão desigual que está prevalecendo a presença de concessões para redes estatais, e somado à retirada forçada de cena de redes opositoras, o monopólio não está sumindo, mas apenas mudando de lado. 

Na Argentina, a coisa parece ainda mais grave – a lei de 2009 não redistribui as cotas de participação, mas sim reduz a presença de grupos privados, liberando a presença nacional de sinal apenas para emissoras estatais ou ligadas à Igreja Católica. O significado não poderia ser mais claro. A lei foi feita sob medida para o estrangulamento do grupo opositor. É parte de estratégia antiga da família Kirchner, às turras com o Clarín desde o começo do mandato do falecido Nestor, e depois de passar pelos fronts econômico e jurídico, ironicamente achou o ringue ideal na própria casa do adversário, que é a mídia – tudo isso enquanto Cristina, com seu tom de discurso farsesco, busca aumentar a popularidade do governo, principalmente com setores conservadores. Acaba sendo bastante irônico também que, mesmo com essa popularidade, muito provavelmente Kirchner não consiga ser reeleita – pesquisas revelam que um terceiro mandato dela seria rejeitado por 2/3 dos eleitores… 

O que fica disso tudo? Vale ressaltar: democratização de mídia é algo louvável (e que deveria servir de modelo em qualquer lugar do mundo). Mas tirar um grupo do controle e colocar outro, ainda mais estatal, é tão ruim quanto tolerar o monopólio privado – democratização é ampliação, não restrição. E do modo como está acontecendo no Equador e na Argentina, com a supressão das vozes dissidentes, é lamentável.


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