Falsas esperanças

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Enquanto isso, nas arábias, um vento de esperança sopra quando se noticiam novas constituições para países afetados pela onda de protestos de 2011…ou será que não?


No Iêmen, essa esperança veio a reboque da notícia oficial da saída de cena do presidente Abdullah Saleh. Pra quem não lembra, o Iêmen foi um dos países árabes onde ocorreram alguns dos protestos mais inflamados (e repressão das mais duras) durante 2011. Saleh foi um caso bem atípico – não largava o osso, mas ao mesmo tempo dava alguma margem de manobra para a oposição, dizendo que se o povo queria mudanças, que o fizesse pelas urnas. Com 30 anos de experiência no poder, ele sabe o que faz, e sai do poder de forma pacífica, terminando seu mandato, e deixando o abacaxi para Abdo Rabbo Mansour Hadi, seu vice, que deve dar um jeito de convocar eleições gerais e mudar a Constituição nos próximos dois anos, segundo um plano de transição do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Escapando ileso (e deixando um dos seus no poder), ponto pra Saleh.

E acabam aqui as boas (mal e mal) notícias. Na Síria, a situação piora, com dezenas de mortes por dia. A semana passada foi agitada, com mortes de repórteres estrangeiros e um arremedo de referendo constitucional que aconteceu no fim de semana. É uma proposta de nova Constituição pra inglês ver, o tipo de jogada política que tem a intenção de mostrar boa-vontade mas deixa os opositores estupefatos (já que o presidente Assad não respeita muito a que já está em vigor…) nem impressiona os países ocidentais. O que importa, no fim das contas, é a possibilidade da impunidade, já que China e Rússia ainda blindam a Síria, e pelo jeito por muito tempo. Putin é o franco favorito para as eleições de março e muito provavelmente vai endossar o discurso de censura às críticas dos países ocidentais quando voltar ao poder.

O discurso diplomático oculta aquilo que todo mundo já sabe, o interesse econômico e de exportação, especialmente de armas. Oras, se até a Turquia, um país que engrossa o coro dos que criticam Assad e oficialmente embarga o envio de armas pra Síria, deixa escapar um ou outro carregamento em nome de relações comerciais, quanto mais a Rússia, maior provedor de armamento do regime de Damasco. O duro é ver o argumento de Putin – em vez de ir por um lado mais elegante, como a defesa da autodeterminação e da não-interferência (linha que foi seguida pelo Brasil, por exemplo), o foco é em como a Rússia perdeu mercado na região com os protestos, dando a entender que interesses ocultos de mercado financiam os rebeldes. Eu não duvido de nada. Mas esse tipo de retórica não faz nada mais que incentivar a repressão (já que não vai dar em nada a pressão “de fora”…) que já contabiliza mais de 7200 mortes. Pontos pra Assad. Muitos.


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