Falar ou não falar? Eis a questão…

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Nos últimos dias foi realizada a primeira grande viagem internacional de Dilma em 2012. Desta vez, a presidente deu o ar da graça em Havana, a capital cubana. Como já tratado aqui no blog, esse encontro representou uma mostra da diversificação diplomática do governo e um reforço para agenda multilateral brasileira. Da mesma forma, possibilitou largos investimentos subsidiados em infra-estrutura no país e linhas de crédito brasileiras.

Todavia, não foi esse o tom da avaliação da mídia e dos dissidentes sobre a visita. Muitos dos jornais e revistas destacaram uma questão que sempre emerge quando o assunto é Cuba. E os direitos humanos? Nada diferente do que se imaginava ocorreu. Do que se sabe, a comitiva de Dilma não saiu da reunião com Raúl Castro mencionando publicamente as violações de direitos humanos ou mesmo tratando da morte de um dissidente cubano vinculada à sua greve de fome.

Mas e aí, falar ou não falar de direitos humanos no país? Eis a questão! Bom, sendo essa uma questão tão delicada e polêmica, sabe-se que o Itamaraty entende que esse não é o ponto principal de negociação desta vez. Talvez porque se tema que uma postura ideológica (aqui falo em termos de política externa, uma postura ideológica, de alinhamento por ideais, ou pragmática, de negociações com todos) nos remeta aos distantes tempos de Guerra Fria e impeça o procedimento de negociações que garantam capital político e, mais adiante, um status concreto de líder regional.

E se falássemos? Bom, ao que me parece, tudo depende de como poderia ser falado. No momento atual, de negociações bilionárias para a reconstrução do porto de Mariel, financiada pelo BNDES, talvez não fosse mesmo apropriada uma declaração pública no país. Todavia, um editorial da Folha de S. Paulo no último dia 28, indicou uma possibilidade interessante. Uma breve e singela menção antes de embarcar poderia não ser de todo ruim. O problema, como já disse, são os interesses e ambições da diplomacia brasileira. A ambição política de potência global com o apoio da América Latina e os interesses econômicos regionais podem estar atando as mãos do governo.

Apesar de toda essa discussão, já temos uma mudança. A concessão do visto de turista para a blogueira cubana Yoani Sánchez (o primeiro passo para que Cuba libere sua saída do país) já ocorreu. Essa já é a quinta vez que a blogueira pede visto brasileiro e, alguns poucos dias antes da viagem a Cuba, o Itamaraty concedeu a autorização.

Pode ser que haja mais coisas entre o céu e a diplomacia do que imaginam que sonha nossas vãs suposições ou a diplomacia brasileira está dando seu recado nas entrelinhas. Atualmente é difícil romperem-se posturas internacionais da noite para o dia dentro de um mesmo partido no poder. Já uma mudança gradual, parece ser bem possível. E a concessão do visto à cubana pode ser a indicação de que o Itamaraty não esteja ignorando os críticos do regime cubano, mas que apenas não está preparado para movimentos bruscos. Talvez essa seja “a breve declaração antes de embarcar…”.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


3 comments
Raphael Lima
Raphael Lima

Obrigado pelos comentários! Essa é uma questão que me pareceu muito mais alardeada pela mídia. Uma mudança no trato de um regime em transição com o qual se tem tantos interesses político-econômicos não teria como ser ruptural.E, Vilson, que bom que gostou do blog! Continue nos visitando e, sempre que possível, comentando. Um abraço,

Anonymous
Anonymous

Ola Rafael, Há muito tempo queria conhecer seus pensamentos e fiquei com ótima impressão sobre eles.Parabéns !Vilson

Anonymous
Anonymous

Prezado RAPHAEL,Sua linha de pensamento tem sido muito bem direcionada. A presidente Dilma, também, tem seguido uma postura e conduta com muita inteligencia . O tempo vai nos mostrar se agiu corretamente.E,.. até a proxima semana