Fala o que quer, cala o que não quer

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A máxima (e suas variantes) creditada a Voltaire, “posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo”, aparentemente não é muito bem vinda em alguns regimes sul-americanos. Não é exclusividade nossa – o bonachão premiê italiano Berlusconi já disse em alto e bom som que essa liberdade de imprensa “é relativa”. Só que, em alguns países daqui ela está, quando não seriamente constrangida, ao menos ameaçada pontualmente.


Nem vamos entrar nos méritos de Chavez, o medalhista de ouro no quesito perseguição, que manda prender o presidente da televisão opositora com argumentos estapafúrdios de fazer especulação automobilística. Há casos menos alardeados, como Porto Rico, por exemplo, onde foi vedado o acesso da imprensa ao Senado e ao Congresso em determinadas ocasiões. Mas o caso que anda chamando mais a atenção é o da rixa entre o grupo Clarin e os Kirchners na Argentina. O que começou como divergência quanto à situação da taxação de produtores agrícolas e a discussão acerca de uma controversa lei de mídia acabou descambando para a paranóia de conspiração para derrubar o governo – o primeiro sintoma do chavismo anti-midiático. Veja mais aqui.

Não vamos defender grandes os grandes conglomerados midiáticos – convenhamos que ninguém é santinho nesse aspecto. Mas é interessante reparar que, quando a situação fica apertada para esses governos, especialmente os de caráter personalista, o primeiro setor a levar pancada é justamente a imprensa. No caso, a Argentina enfrenta sérios problemas econômicos com a crise agrícola interna e os probleminhas de sempre com o Mercosul. A Venezuela está ainda pior, com o PIB em queda livre, problemas de desabastecimento de alimentos e racionamento de energia, só para citar os mais famosos.

E vale ressaltar que nem o Brasil escaparia disso. Mesmo por que o país já não tem uma relação muito boa com a imprensa, principalmente a escrita, que é censurada e constrangida de diversas maneiras (apesar da revogação em 2009 da infame Lei de Imprensa, da época da ditadura). Lembrem-se do tal Conselho Federal de Jornalismo, que gerou uma senhora controvérsia na época de sua discussão e foi devidamente abafado com panos quentes. Agora, não estivesse o Brasil singrando alegremente a marolinha da crise mundial, a imprensa estaria marretando o governo Lula ainda mais, e possivelmente dando corda para o resgate da idéia de um mecanismo de controle como aquele.

O primeiro sintoma da insatisfação com os rumos do governo é a reação da imprensa, e nos países com governantes de traços mais personalistas (seria muito forte dizer… autoritários?), a resposta vem com a imposição do silêncio. E, quanto maior fica a bola de neve dos problemas, mais flagrante a truculência e a incapacidade desses governos.


Categorias: Américas


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

Além do já descrito no texto de Álvaro há em tramitação a "Lei dos Blogs" que exige comentários moderados, registro dos blogueiros (com cpf e tal), responsabilização desses por comentários apocrifos que violem a lei.A primeira vista parece apenas uma conseqüência do Art 5º da CF, mas junto com a PEC do diploma de jornalista, parece ser mais uma tentativa de censura.Eu, como vocês, já tenho CPF registrado por que tenho dominio próprio e faço moderação dos comentários, a lei não me afetaria, mas não creio ser necessária já que existe na legislação punições para crimes contra a honra. Assim, por que essa lei?