Faça o que eu digo, não faça o que eu faço

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Todos, creio, lembramos bem o fenômeno político, midiático e social que representou a candidatura de Obama a presidência dos Estados Unidos em 2008. Era o fato novo, fugindo da mesmice dos infindáveis debates entre Republicanos e Democratas. Era a esperança, seria possível emergir um político acima dos interesses partidários e que verdadeiramente representasse os mais caros valores norte-americanos?

Voltemos à campanha de 2008. Obama dizia que “basta, não queremos mais quatro anos dessa economia fundamentalista do presidente Bush. Já tivemos suficiente”. Além disso, outro ponto fundamental era o fim da quase isenção fiscal aos mais ricos. Afinal, justamente essa porção da sociedade norte-americana que deveria arcar com o ônus maior, ao contrário do modelo implantado por Bush. Depois de sua posse, Obama começou sua batalha, consciente de sua dificuldade e do sacrifício político que representaria defender seus pontos de vista. De tal forma que, por conseguinte, estaria representando a maioria da população do país, a mesma que o elegerá meses antes. 

Essa batalha parece caminhar para um final triste. De certa maneira, os ideários de Obama colapsaram ante as pressões políticas dos mais diversos setores da sociedade americana. Ninguém dizia que seria fácil, porém a escolha por Obama estava vinculada justamente a isso, qual seja, uma pessoa que não se entregasse ao establishment político de Washington. O direcionamento econômico da Era Bush terminou sendo mantido. Alguma mudança naquela política econômica referida como fundamentalista durante a eleição? Parece que, se há, foram poucas. 

No capítulo mais recente, o Senado norte-americano aprovou a extensão por mais dois anos do corte de impostos advindos do governo Bush. Segundo a Casa Branca isso representa um impulso à economia, ao passo em que “alivia” a classe média. O pacote é composto de 800 bilhões USD em corte de impostos e 57 bilhões USD em seguro desemprego. Por um lado, foi uma conquista dos governistas, que lograram um acordo bi-partidário em um tema que demarca fortes posições de ambos partidos. Por outro lado, muitos senadores democratas e analistas políticos trazem à tona a manutenção da generosidade junto aos mais ricos. Não era combater isso outra plataforma da campanha de Obama em 2008? 

Desde o início de 2009, Obama ganhou o Nobel da Paz, aprovou a reforma da saúde, discursou em favor do entendimento entre povos islâmicos e os Estados Unidos, entre outros importantes fatos. Em certos campos, em minha opinião, Obama tem feito um investimento pensando no longo prazo, visando desfazer a imagem ruim no campo internacional que lhe foi entregada por seu antecessor. Contudo, no campo econômico as decisões têm sido pautadas no curto prazo e nas mesmas diretrizes da equipe econômica de Bush. As batalhas mais dolorosas, muito além de combater questões econômicas iminentes, não têm sido “compradas” por Obama. Poucos são os indícios que Obama terminará seu primeiro mandato com uma economia em bases mais sólidas para os desafios dos próximos anos (não só dos próximos dias e meses).  

Ao passo que vamos, Obama terá imensas dificuldades na campanha de re-eleição. A esperança, o fato novo, o “basta” às políticas econômicas de Bush muito provavelmente não convencerão o eleitorado pela segunda vez. Obama não luta por tudo que defendia, e para o qual teria apoio de grande parte da população norte-americana, mas mantêm políticas que antes desprezava. Os republicanos devem estar felizes da conta, não só pela vitória nas eleições de meio de período, mas pelo recrudescimento dos movimentos conservadores país afora. Ainda há tempo, Obama segue mais popular que os figurões do Partido Republicano, por tal motivo, segue em vantagem. No entanto, o jogo pode virar para ambos os lados, de acordo com as decisões do governo Obama. Será que Obama vai retomar muito do que defendia em campanha e que até agora não pode fazer? Ou será que os republicanos voltarão a ser a visão majoritária do país?  

Para saber mais: 1,2,3,4

(OFF) – Trago um interessante artigo sobre os recentes protestos no Reino Unido (1)


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