Extripolias Embaixo da Terra

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Os muros são muito bem conhecidos na história da humanidade. Podem ser tanto muros ideológicos quanto concretos. Quando os recursos diplomáticos se tornam escassos, ou quando se vê em necessidade imediata de defesa, apela-se para o bom e velho muro, de concreto ou de aço, o que for mais eficaz para as circunstâncias.

Na antiga China, a Grande Muralha foi construída por várias dinastias para manter o império seguro diante das constantes invasões de povos do norte. Na Alemanha pós-guerra o Muro de Berlim foi erguido para separar duas Alemanhas ideologicamente diferentes e impedir a migração da Alemanha Oriental (RDA) para a Alemanha Ocidental (RFA). Na Cisjordânia, um muro para impedir migrações de palestinos e a passagem de terroristas para região está quase completo.

E não satisfeitos com um muro no Oriente Médio, não muito bem sucedido, a conturbada região de Gaza parece conquistar um novo: o projeto de muralha que se extende a 30 metros no subterrâneo do território egípicia na região de Rafah, fronteira com Gaza. O objetivo central seria evitar o tráfico de armas e a passagem de terroristas pelos túneis subterrâneos ligando esses dois territórios, como anunciado pelo presidente do Egito, Mohamed Hosni Mubarak.

Mas dessa vez parece que o buraco é mais embaixo. Literalmente. Os túneis subterrâneos são praticamente um negócio para os locais que se beneficiam do transporte ilegal de pessoas e suprimentos em tempos em que o Egito, em seu bloqueio à Faixa de Gaza, tenta fechar o cerco contra a região. A grande jogada desse muro é concretizar mais o distanciamento entre a Palestina, com grande influência do Hamas, e o Egito.

Agora, mais ainda, vê-se a concretização de uma barreira que já existia, e que agora parece ser mais intensa. A pergunta que não quer calar é se ele realmente impedirá as imigrações ilegais e se será suficiente para resolver uma questão dessa magnitude. Infelizmente não. O negócio dos tunéis tenderá à continuidade. E mais ainda, os conflitos na região não cessarão. Apesar das claras intenções de preservar a soberania de seu território, uma barreira física não é suficiente para resolver problemas sociais de maior magnitude.

A cada chapa de aço colocada, a região como um todo vê-se mais distante de qualquer solução diplomática. Uma barreira que torna real um muro há muito existente nada muda na região. Os países do Oriente Médio se recusam a buscar uma solução diplomática de benefício mútuo (se é que há uma. . .), e acabam por erguer mais barreiras que distanciam cada vez mais os vizinhos, tanto do ponto de vista ideológico, quanto do ponto de vista concreto. Muros aqui, barreiras acolá, ao final das contas apenas vemos mais extripolias que contribuem para a inquietude da Faixa de Gaza.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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