Explicar o inexplicável

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O que significa o rapto de mais de 200 meninas de uma escola na Nigéria? E dizemos rapto no seu sentido verdadeiro, de abdução com fim libidinoso, e não como se diz equivocadamente por aí quando se referem a sequestros.

Provas de que a humanidade não merece o ar que respira existem aos montes no noticiário internacional, mas a notícia dessa semana despertou uma repulsa poucas vezes vista anteriormente. Países com EUA e China, que tecnicamente não têm nada a ver com o assunto (pelo menos, de maneira direta) estão ajudando o governo da Nigéria com informações de inteligência e imagens de satélites. Então existe comoção. É algo inadmissível. Mas o que significa?

Será que representa a opressão feminina em uma sociedade machista? Especialmente na África e na Ásia persistem padrões mais claros de patriarcalismo. Não que isso não aconteça do lado de cá do Atlântico, mas por aquelas bandas a coisa é escancarada. E o anúncio do líder do grupo responsável pelo rapto de que as meninas serão vendidas como esposas para líderes e ricaços nos países vizinhos fortalece essa mensagem. Mas na Nigéria os problemas são mais profundos. Os alvos não são apenas mulheres – há relatos de escolas atacadas, em que todas as vítimas massacradas eram meninos. A opressão de gênero parece ser mais uma consequência de uma estrutura maior.

Seria religião o problema? O tema tem sua cota de responsabilidade pelo sangue derramado no país, mas o radicalismo de grupos como o Boko Haram é rejeitado pela grande maioria dos muçulmanos mundo afora. Não chega a ser representativo de um conflito sectário maior, como o que está rolando na República Centro-Africana.

Será então que o problema é a falência do governo? Notícias do dia mostram haver evidências de que o governo sabia da iminência dos ataques mas não conseguiu de organizar a tempo. E protestos por uma atitude mais eficiente do governo no resgate foram respondidos à maneira dos ditadores truculentos, com a prisão de líderes manifestantes sob a acusação de estarem patrocinando a instabilidade do Estado. E não vamos esquecer da pobreza, que é a fonte de recrutas para esses grupos, bem como possivelmente a fonte da maioria dos males do mundo.

Crianças que buscam educação, para superar a pobreza e as deficiências de um Estado ausente. Grupos radicais que agem à revelia do mesmo e destroem potencialidades em cada uma dessas vítimas. A questão é a busca pela educação, e o problema se constrói como se isso fosse algo errado! O que choca nessa caso é justamente a proximidade da situação. Pode-se contestar o meio como isso é feito, mas os programas de inclusão no Brasil, por exemplo, servem para tentar evitar esse tipo de “erosão” social. Pode ser que nem todos que leem estas linhas estejam em fuga de suas casas, amontoados em caminhões e dividindo espaço com cadáveres como na RCA (onde, por sinal, a coisa está MUITO pior que na Nigéria), mas a maioria conhece a história de alguém esforçado, que trabalha e faz algum curso noturno para ter um diploma técnico para tentar um padrão de vida melhor. É uma situação mais próxima, e por isso ainda mais revoltante que qualquer relato de combates ou mortes. Sem contar o lado da violência e humilhação de gênero, que causa asco na sociedade (ou deveria, haja visto a repercussão daquela famosa pesquisa equivocada do IPEA como vimos há pouco tempo). O rapto dessas meninas na Nigéria tem muito significado, mas principalmente, nos mostra a aparente impotência e incredulidade contra a ignorância que parece ser a única característica verdadeiramente comum no gênero humano, além da violência, seja com raptos na Nigéria, linchamentos no Brasil, ou atirando bananas na Espanha.


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