Existem limites?

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A mais nova atrocidade cometida no contexto dos conflitos na Síria chegou às manchetes essa semana e levanta uma questão: existem limites? Em uma situação de conflito interno que talvez já tenha ultrapassado todos os limites de violência e de vítimas inocentes que poderíamos supor existir em pleno século XXI, este caso vem para impressionar pela crueldade do ato – que por si só já é motivo de sobra para enorme repulsão – mas, paradoxalmente, pode trazer o debate a um nível diferente, em que (mais do que) urgente é a tomada de decisões para evitar situações parecidas.

Para quem não viu nos noticiários dos últimos dias, o caso em questão se refere ao rebelde sírio da cidade de Homs, identificado como Abu Sakkar, que foi filmado arrancando o coração (ou o fígado, segundo outras fontes) de um soldado sírio já morto e mordendo tal órgão. Trata-se de uma situação de tamanha degradação humana que não é necessário visualizar o vídeo em si para imaginar a cena (apesar de este estar disponível no YouTube).

Alegando a política de Hamurabi de “olho por olho, dente por dente”, a justificativa (se é que se pode chamar assim) de Sakkar é de que foram encontradas imagens gravadas no celular do soldado de abusos sexuais cometidos anteriormente por este. É claro que nenhum julgamento é fácil e que o conflito sírio é muito mais complexo e envolve muito mais interesses que se possa imaginar, mas a brutalidade deste ato parece trazer o debate para um nível diferente.

Um crime de guerra de tal repercussão cometido por um rebelde em um contexto de conflito armado que perdura desde março de 2011 e que já causou aproximadas 80 mil mortes (ou 120 mil, de acordo com outras fontes), além de mais de um milhão de refugiados (mapa interativo sobre a situação dos refugiados aqui) e milhões de deslocados parece (ou pelo menos deveria) ser o estopim para que os esforços pela paz sejam redobrados, triplicados, multiplicados por todas as menores chances de se alcançar um diálogo entre governo e rebeldes pelo final da violência no país.

Uma Conferência de Paz está sendo proposta pelos Estados Unidos e pela Rússia para junho, mas informações relativas à possibilidade de não comparecimento do governo sírio já foram divulgadas, alegando riscos à soberania do Estado… será?

O rebelde “canibal” alega não estar arrependido de sua atitude, mas líderes do maior grupo rebelde da Síria garantem que ele será punido por sua conduta, sugerindo que, sim, existiriam limites à crueldade e que a indignação seria compartilhada por todos os lados. Com tamanha crueldade ele agiu (e quem saberia dizer quantos outros combatentes, rebeldes ou partidários do governo têm agido sem serem filmados?), mas também com crueldade ele será provavelmente punido, e de enorme crueldade (mas talvez não tão midiatizada) milhões de inocentes estão sofrendo, em incontáveis dramas anônimos e particulares…

A comunidade internacional se comove, se choca e se revolta. Contudo, ainda assistimos impotentes a uma carnificina que aflige a população síria e cuja perspectiva de solução ainda parece estar longe de ser alcançada no plano político. Existem, pois, limites? 


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Anonymous
Anonymous

Prezada Bianca Fadel.Muito dificil a situaçao na Siria. Triste acreditarmos nesta realidade.Harley