Eu voltei (na Rússia)

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“Eu voltei agora pra ficar
Por que aqui, aqui é o meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei,
Eu voltei”

A música de Roberto Carlos descreve um retorno, uma volta para as coisas deixadas para trás. Algo definitivo, como o retrato na parede. Foi como se não tivesse partido. No nosso caso, a vida imita a arte, mesmo que não plenamente. Vladimir Putin, atual primeiro-ministro russo, aceitou a indicação de seu partido para concorrer à presidência de seu país. Contudo, alguém realmente acreditou que ele havia passado o bastão para Medvédev? Voltou sem ir a nenhum lugar.

O presidente em exercício, um tanto quanto fragilizado ante seu mentor, propôs uma troca de papéis. Sai Medvédev e entra Putin para presidente, ao passo que este passa o posto de premiê para aquele. Uma renovação, nas palavras do próprio mandatário, que encontra forças neles mesmo, uma continuidade que permita saber quem estará no controle do Estado. Agora, vai ser abertamente Putin esta figura central. Medvédev mesmo admitiu “Putin é o político com mais autoridade em nosso país”. Será que, frente tal reconhecimento, ele aceitou de fato ficar na sombra de um presidente menos graduado por quatro anos?

Para completar, uma comparação levantada pelo atual presidente tenta demonstrar a naturalidade da transição que muito provavelmente será feita (as eleições ocorrerão em 4 de dezembro). Seria como a aliança estabelecida entre Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, e Hillary Clinton, escolhida para comandar o Departamento de Estado. Na visão dos mandatários russos é o que ocorrerá no país, uma espécie de concertação entre políticos do mesmo partido pelo bem na nação. Só esquecem que no caso norte-americano houve uma disputa feroz nas prévias do partido democrata e que a aliança foi selada posteriormente, ao contrário do que ocorreu na Rússia.

Putin deve voltar para o que nem chegou a deixar. O seu retrato não saiu da parede, muito menos amarelou. Por outro lado, sua popularidade perdeu o embalo e seu projeto de estabilidade ganhou contornos de estagnação. A tendência de queda do preço do petróleo pode dificultar ainda mais a situação, podendo tragar a Rússia para um buraco similar ao de alguns países europeus. Corrupção e nacionalismo são temas que poderiam voltar à tona, numa tentativa de minar a candidatura de Putin, ainda que com chances pequenas de consolidarem um caminho para a vitória da oposição. Quase todos os indícios apontam para sua volta.

O destino da Rússia pelos próximos anos já parece estar traçado. A princípio, parece que Medvédev manteve a cadeira pronta para seu mentor. Um retorno mais doce do que o imaginado por Roberto Carlos:

“Eu cheguei em frente ao portão
Meu cachorro me sorriu latindo,
Minhas malas coloquei no chão.
Eu voltei.” (Roberto Carlos)


Categorias: Política e Política Externa


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