ETA coisa estranha…

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Embora soe como um caipirês coloquial, a linguagem é mais complexa. Ela envolve o basco e o castelhano, a luta armada e o cessar-fogo, o terrorismo e a política. Sim, estamos falando do grupo basco separatista – (dito) terrorista – Euskadi Ta Askatasuna (ETA). Ahn? Melhoremos isso: “Pátria Basca e Liberdade”. No sábado, três integrantes encapuzados do grupo anunciaram para os bascos, Espanha e comunidade internacional o fim de ações armadas ofensivas e o início de um processo democrático (aqui). É o décimo primeiro cessar-fogo, o que há de novo neste?

(Vejam a declaração original do grupo e o vídeo)

Em primeiro lugar, a questão étnica é muito forte na Espanha. A Catalunha, por exemplo, é uma comunidade autônoma. Os bascos, por sua vez, buscaram a separação de uma parte do nordeste espanhol e de outra do sudoeste francês para construírem um novo país. Desde 1959, os mais radicais, com a criação do ETA, adotaram a luta armada como via emancipatória, embora seus primeiros atentados datem do final dos anos 1960. Em 1978, uma nova constituição espanhola assegurou maior autonomia para os bascos e a população depôs as armas, exceto os membros do ETA, que desejavam (e desejam) a independência total. Para aguçar a curiosidade – e também sobrelevar a dimensão do problema -, há times de futebol bascos, como Atlético Bilbao e Real Sociedad, que apenas permitem jogadores da etnia.

Em segundo lugar, o que o governo espanhol pode esperar? Desta vez, é definitivo o término da luta armada? No início de 2006, o ETA anunciou que seria permanente, mas voltou atrás em dezembro, quando atacou o Terminal 4 do Aeroporto Internacional de Madrid Barajas, matando inclusive dois equatorianos. O governo do País Basco afirma que já acabou o tempo das tréguas e que é hora de buscar vias institucionais. O terrorismo não deve mais ser uma opção. No entanto, a situação permanece entre o ceticismo e a expectativa. Por um lado, os membros do ETA não entregaram as armas, não afirmaram se será definitivo fim da luta armada e como formarão um partido político, por outro, a maioria dos seus líderes estão presos e o grupo se encontra bastante desgastado.

É cedo para dizer qual o real significado dessa desistência do ETA. Muito cedo! Pode ser parte de uma estratégia para o grupo se fortalecer no anonimato, enquanto a população espanhola se sente segura e o governo permanece relativamente despreocupado. É possível também que siga os passos do Hamas e entre para a via política de fato, ressuscitando o antigo e fragmentado Partido Nacional Basco (PNB). A primeira parece mais provável que a segunda, pelo próprio histórico do grupo. Há algo de estranho nesta iniciativa do ETA, que por enquanto atende por incógnita.


Categorias: Conflitos, Europa


1 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

O país Basco é um daqueles casos únicos, mas não creio que seja difícil chegar a um processo de paz. Claro que suas reivindicações passam por um tema delicado, e como suas intenções ainda são obscuras, resta imaginar que seja possível algo como o que ocorreu na Irlanda do Norte, que demorou um bom tempo antes de ter a paz.