Et tu, Brute?

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A imagem é fortíssima, e já diz tudo. Nesse fim de semana, numa conferência ao vivo, o líder de um partido turco da Bulgária (parece confuso, mas é isso mesmo) sofreu um atentado, e só escapou por que a arma travou. Sorte grande ou milagre para Ahmed Dogan, azar do pretenso atirador, que levou uma bela surra dos presentes e foi preso. 

Assassinatos políticos não são expediente novo – estão aí desde sempre, como atestou o pobre Júlio César a seu afilhado Brutus na versão imortalizada de Shakespeare (versão aliás bem mais interessante que a da vida real, em que morreu sem dizer nada esfaqueado por umas 20 pessoas). E só de pensar nos casos como o do Arquiduque Ferdinando, ou de John Kennedy (aliás, presidentes americanos tem essa tendência terrível de serem baleados) vemos que ainda está na moda, apesar de ser um estilo meio século XX ainda.

O interessante disso é que na maioria das vezes, o autor dos disparos (ou facadas, ou seja lá o que for) nem chega perto de cumprir seu objetivo, ou apenas piora a situação. John Wilkes Booth matou Lincoln por que era contra a libertação dos escravos (entre outras coisas). Deu tão certo que o Obama é presidente hoje. Gavrilo Princip estourou a I Guerra Mundial quando matou o Arquiduque Francisco Ferdinando em nome do nacionalismo sérvio, e apesar de não ser a única causa, acabou sendo um dos responsáveis por deixar seu povo em guerra por mais de 80 anos. E isso pra não dizer os inúmeros planos que não falharam, como a Operação Valquíria ou as folclóricas e desastradas tentativas da CIA de se livrar do Fidel Castro. Acho que a única exceção a essa regra até hoje foi a morte do Yitzhak Rabin, que realmente foi um sucesso total pro atirador (e a desgraça do processo de paz com os palestinos). 

Desse jeito, o assassinato acaba tendo muito mais uma função simbólica ou de amedrontamento (que mesmo assim pode não funcionar). No fim das contas, acaba se tornando apenas um crime comum, originado em problemas psiquiátricos ou perversidade mesmo. Parece ser o caso – a Bulgária é um país com grande população muçulmana e turca (uma espécie de “santuário” de tolerância numa Europa cada vez menos amistosa), então seria de se esperar que fosse um assassinato de protesto contra imigrantes ou coisa do tipo… até descobrir que o atirador é de etnia turca. Vai entender.


Categorias: Europa, Política e Política Externa


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