Estômago vazio, oficina da penúria

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Fome: s.f. Necessidade de comer, causada pelas contrações do estômago vazio / Penúria, miséria, míngua de víveres.

Ao definir o conceito de “fome” de acordo com o dicionário, apresenta-se uma perspectiva que atinge a realidade de 500 milhões de pequenos agricultores no mundo. Esta afirmação de Olivier de Schutter, especialista da Organização das Nações Unidas (ONU) em direito à alimentação, permeou os noticiários recentes e pode promover reflexões.

Segundo Schutter, “30 milhões de hectares de terras cultiváveis são perdidos todos os anos para a especulação com terras, para a degradação ambiental e para conversão ao uso industrial ou urbano”. Esta quantidade de terras corresponde a “uma Itália (!) em áreas cultivadas”, o que se mostra assustador em qualquer análise, ainda que leiga, sobre a temática.

A combinação dos três fatores supracitados torna a problemática da fome extremamente grave no que tange as Relações Internacionais. Dificuldades em termos de degradação do Meio Ambiente (advindas ainda da necessidade de conscientização generalizada da população a respeito do assunto); consequências da especulação (notadamente por investidores estrangeiros interessados apenas na visão do lucro empresarial); e aspectos concernentes à urbanização (os quais desvalorizam, por assim, dizer, o campesinato e promovem o êxodo rural exacerbado que desestrutura as bases sociais) estão diretamente relacionados neste sentido – e justificam, por assim dizer, a conclusão apresentada pela ONU no dia de hoje, apresentando uma realidade entristecedora.

A fome no mundo deve ser analisada, neste contexto, a partir de uma perspectiva mais complexa do que a mera justificativa de “falta de alimentos” pode proporcionar em uma visão simplista (alguns aspectos para reflexão podem ser vistos aqui, por exemplo). É preciso se entender a amplitude dos interesses envolvidos para que a solução ao problema da fome venha a ser compartilhada efetivamente por todos os cidadãos em benefício de si próprios e de seus semelhantes.

A esperança existe, afinal, a própria Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou no mês passado estatísticas afirmando que o número de pessoas subnutridas no mundo teve em 2009 a primeira queda em 15 anos, apesar de a quantidade de pessoas nesta categoria ainda configurar um número assustadoramente alto. Espera-se que possamos, pois, reverter este quadro existente – proporcionando à sociedade, cada vez mais, condições necessárias à sua sobrevivência plena. Plenitude esta que certamente não envolve a perspectiva de penúria ou de contrações do estômago vazio…

[Update: Uma petição no sentido de mobilizar a população sobre a questão da fome está circulando na internet e será apresentada às Nações Unidas no próximo mês. Aos interessados, o link é: www.1billionhungry.org – participemos e divulguemos aos contatos!]


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Organizações Internacionais, Polêmica


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