Estado laico. Ou nem tanto.

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Não, Barack Hussein Obama não é muçulmano. E eis que a religião do atual presidente dos Estados Unidos tem sido discutida em manchetes internacionais.

A questão é que foi divulgada ontem uma pesquisa do Pew Research Center demonstrando que 18% dos americanos acreditam que Obama é muçulmano, enquanto apenas um terço da população, 34%, sabe que ele, na verdade, professa a religião cristã.

E a pesquisa aconteceu antes de Obama apoiar publicamente o direito dos muçulmanos de construírem uma mesquita nas proximidades de onde se localizavam as torres gêmeas em Nova York, derrubadas nos atentados de 11 de setembro, assunto que está gerando bastante polêmica na terra do Tio Sam.

O que chama a atenção neste âmbito não é apenas o debate em torno da liberdade ou não de um templo muçulmano ser construído ao sul de Manhattan (muitos familiares de vítimas dos atentados terroristas consideraram um insulto tal possibilidade). O mais intrigante é a preocupação da Casa Branca em garantir (sim, este é o termo utilizado) que Obama é cristão.

A preocupação que o governo está demonstrando em configurar a imagem deste importante estadista ocidental como cristão que “reza todos os dias” pode gerar uma discussão muito mais ampla. É importante contextualizar que, nos EUA, a laicidade do Estado (ou seja, sua neutralidade religiosa) é datada do ano de 1787. Desta forma, se promove a separação entre Estado e Igreja, constituindo a religião uma opção livre dos cidadãos. Mas será que esse Estado é realmente tão laico assim?

Ao vislumbrar manchetes na mídia internacional com o foco em apresentar a cristandade da família Obama, parece que se desconfigura a atitude crítica que deveria desvincular a religião da vida pública na contemporaneidade. Por que as crenças religiosas (e pessoais) de Obama importam tanto?

Contestar uma decisão política polêmica é um aspecto a se discutir, porém manter um conservadorismo medieval que exige esclarecimentos acerca das preferências religiosas de um cidadão, seja ele o presidente dos Estados Unidos ou não, talvez demonstre que a modernidade ainda esbarra em preconceitos mais profundos do que podem parecer à primeira vista…


Categorias: Estados Unidos, Mídia, Política e Política Externa


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