Estadistas brasileiros

Por

Itamar Franco (1930-2011)

Foi uma semana para se voltar no tempo. Fernando Henrique Cardoso foi homenageado no Senado por seus 80 anos, Sarney relembrou os 25 anos do Plano Cruzado em coluna no jornal Folha de São Paulo e Itamar Franco faleceu na manhã de hoje. Todos foram personagens da estabilização e democratização brasileira, os três reservaram, cada um à sua maneira, um justo lugar em nossa história.

A miríade de planos econômicos que os brasileiros viram nascer entre 1986 e 1994 demonstra, sem restar espaço para dúvidas, a longa jornada que percorremos. Para uma rápida recapitulação, nossas moedas recentes foram: cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real e real. Entre as tentativas de controlar a inflação podemos citar: Plano Cruzado, Plano Verão, Plano Bresser, Plano Collor e finalmente o golpe certeiro através do Plano Real. A rotatividade na área econômica englobou ainda os ministros da fazendo e os presidentes do Banco Central. Passamos de um país que acumulou uma inflação de mais de 13 trilhões % (1979 – 1994), para outro que viu a inflação crescer menos de 200% nos quinze anos desde o Plano Real.

Quem assiste as novas discussões sobre a economia brasileira parte de um país muito diferente daquele da redemocratização. São evidentes os gargalos na infra-estrutura, a política fiscal ainda criticada e o sistema político pouco representativo. Contudo, enfrentamos a última crise econômica com mais propriedade e margem de manobra. Ficaram para trás dias difíceis, em realidade, anos de uma paralisia em decorrência da inflação inercial que impediu planejamentos de longo prazo. Até mesmo Fernando Collor deixou sua contribuição positiva, através da política de abertura comercial que implementou.

A crise na Grécia nos lembra um pouco do que vivemos. Após anos de imperícias econômicas, essencialmente gastos públicos descontrolados e uma dívida crescente, finalmente o governo grego parece ter encontrado o fundo do buraco em que se meteu. Tudo funcionou bem, até o dia que as fontes de crédito se tornam mais difíceis e os juros para refinanciar dívidas aumentam. A austeridade na Grécia é um pré-requisito dos credores e fiadores, as benesses de outrora são transformadas agora em arrocho salarial, redução dos gastos públicos e aumento de impostos. Nesses casos não existe fórmula mágica, a solução passa por medidas extremas e de conseqüências sociais desastrosas.

Nesse contexto, nada mais justo que reverenciar, apesar das muitas ressalvas, nossos estadistas. Sarney, presidente na época da Constituinte, que iniciou a guerra aberta contra a inflação e aos tais “especuladores”. Já Itamar Franco, vice-presidente eleito em 1989, deu continuidade a normalidade democrática frente ao impeachment de Collor. Coube a FHC, ministro da fazenda de Itamar Franco, liderar a gestação do Plano Real e seguir com as políticas de estabilização, como: a abertura comercial e as privatizações de empresas estatais. O caminho percorrido pelos três, somando-se erros e acertos, foi consolidado como nacional no dia-dia da estabilidade, terminando abraçado por quase todos. Mesmo os críticos de antes, hoje muito se utilizam das premissas e alicerces que viram nascer nas últimas duas décadas.


Categorias: Brasil, Economia


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