"Esta velha é pior que o caolho"?

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A diplomacia é repleta de frases indesejadas e conversas sem o dito teor diplomático por debaixo dos panos. Se tudo o que estivesse escrito ou fosse dito viesse a público, o mundo estaria repleto de problemas e contenciosos por aí. Na América do Sul, a declaração recente do presidente uruguaio, José Mujica, sobre a presidente argentina, Cristina Kirchner, é exemplo claro. 

Sem saber que seu microfone estava ligado, e que tudo era transmitido ao vivo pela internet, disse “se para conseguir algo na Argentina tem que se apoiar um pouquinho no Brasil, esta velha é pior que o caolho”. O mal-estar diplomático foi quase imediato. Mas é nessas horas, que a diplomacia baixa a guarda, que se percebe, de fato, o que os governantes pensam. No caso específico da Argentina, fica essa pergunta no ar. 

Por que Cristina é pior do que seu marido para o Uruguai? 

Bom, vamos lá, tentar responder essa pergunta. Economicamente, as barreiras alfandegárias recentes que o governo argentino tem imposto aos seus parceiros de bloco continuam a prejudicar o comércio entre os vizinhos. Basicamente o protecionismo aparece pelas licenças de exportação não-automáticas contra países do Mercosul, e isso já é uma grave violação do protocolo de Ouro Preto, de 1994. 

Em números, para além do manifesto prejuízo comercial, há outro agravante para o país. Enquanto a Argentina é o terceiro principal destino das exportações do país, com 5,7% do volume total exportado em 2012, o Uruguai não se encontra nem entre os dez primeiros países importadores do governo argentino em 2012. 

Da mesma forma, encontra-se somente no nono lugar entre os destinos das exportações argentinas, atrás de parceiros nem próximo dos sul-americanos, como Canadá, Alemanha e os Países Baixos. Os bloqueios dos últimos anos não fizeram com que a Argentina retraísse suas exportações para o país. Pelo contrário, de 2011 para 2012, o governo argentino conseguiu um aumento de 2,0% para 2,4% do total. Já no Uruguai, as exportações para o país dos Kirchner caíram de 8,3% para 5,7%, um número bem significativo. 

Pensando um pouco melhor nesses números, é possível ver o quão assimétrica é essa relação entre hermanos. Por sinal, protecionismo intra-bloco é até lucrativo. Na assimetria, o governo de Mujica perde muito mais com barreiras alfandegárias, e a redução da entrada de seus países na Argentina, do que os Kirchner. E retaliações do Uruguai quase não surtiriam efeito. 

É aí que entra o Brasil. Como disse o presidente uruguaio, “temos que se apoiar um pouquinho no Brasil”. De fato, eles tem. Isso porque somente o grande verde-amarelo e o grande dragão chinês se repetem como principal destino das importações e exportações de Argentina e Uruguai. O Brasil é o maior parceiro para ambos. O que significa que, ou deve-se aproximar da China para que ela se envolva mais diretamente nessas negociações ou do Brasil. Como é pouco provável uma participação mais incisiva do governo chinês, cabe ao brasileiro esse papel de pressão.

Bom, dá pra ver que as ações recentes de Cristina são complicadas para o Uruguai. Agora por que pior? Dizer “pior” já significa que antes era ruim… Pois bem, já foi assunto aqui no blog o contencioso das “papeleras”. 

 

Resumidamente (para mais clique aqui para ler o post), em 2003, o Uruguai foi acusado pela Argentina de violar o tratado de uso do rio homônimo por ter instalado indústrias de celulose próximas a ele. O resultado desse bafafá regional foi um prejuízo grande para o governo uruguaio, uma tensão de mais de meia década, e, em 2010, sua condenação na Corte Internacional de Justiça. 

Com esse comentário despretensioso de Mujica, dá pra dizer algumas coisinhas sobre o porque da piora do marido para a mulher. Primeiro, com Néstor Kirchner, o prejuízo era mais localizado. Agora, é generalizado. Segundo, anteriormente, o governo uruguaio precisava mais de uma arbitragem internacional do que do apoio de terceiros, pra resolver o problema. Agora, depende unicamente das pressões e posicionamentos de um terceiro, o Brasil, que infelizmente para Mujica, tem sido muito brando nas críticas, e parece estar mais preocupado com o longo do que com o curto prazo. Há o mecanismo de solução de controvérsias do Mercosul, mas fica a dúvida se de fato seria vinculante em um caso desses, de baixo interesse brasileiro. 

Bom, resumindo, pensando pelo ponto de vista do próprio Uruguai, Mujica até tinha razão…

[Os dados foram retirados do Brasil Global Net. Confira  aqui, aqui e aqui]


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