Esqueceram de mim

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Em meio aos protestos que seguem no Oriente Médio, muitos acabam esquecendo ou deixando de lado outros assuntos também importantes. As grandes potências têm interesses estratégicos vinculados à chamada “primavera árabe”. Três palavras definem toda a preocupação recente: fornecimento de petróleo. Enquanto uns temem, projetam cenários e discutem soluções plausíveis, outros respiram aliviados e agradecem. Pela primeira vez em dois anos o preço do petróleo ultrapassou os 100 dólares. Hugo Chávez possivelmente é umas das pessoas satisfeitas com o ritmo de oscilação atual da commodity.

Desde que assumiu a presidência na Venezuela, Chávez adotou como política a nacionalização de empresas; o aparelhamento de empresas estatais por seus aliados; e o cerceamento ao setor corporativo no país. Uma das conseqüências foi a diminuição da produção de petróleo pela empresa estatal PDVSA, de 3.3 bilhões de barris/dia em 1998 passando a 2.25 barris/dia na atualidade. Desta produção, quase metade é subsidiada para o consumo interno ou em exportações à aliados regionais. Sobra pouco para a exportação baseada nos preços internacionais.

No campo político, o mandatário venezuelano também buscou ancorar-se em medidas para aumentar seu poder, limitando a atuação do legislativo e do judiciário. Até mesmo o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) criticou a última movimentação arquitetada por Chávez junto ao Congresso, na qual aprovou uma série de medidas em seu favor antes que os novos congressistas assumissem seus respectivos postos. Há ainda, passando para o campo econômico, uma aberta conivência com um mercado paralelo para a venda de dólares acima da taxa estabelecida pelo governo, o comprometimento de parte da produção petrolífera para o abatimento de um empréstimo com a China, somado ainda a recessão econômica (estimada em -2,5% para 2011) e uma inflação galopante (na casa dos 40%).

De acordo com a consultoria britânica em macroeconomia Capital Economics, há um risco crescente da Venezuela não ter suficiente capital para cobrir suas obrigações financeiras já em 2012. O cenário, nesse sentido, seria sombrio para a Venezuela e seus credores com o risco de insolvência em um dos maiores produtores mundiais de petróleo. Nada que faça Chávez diminuir o tom, ser cauteloso ou pelo menos fingir que se importa mais com a opinião de seus opositores. O aumento dos preços do petróleo nos mercados internacionais vem como um fator externo que faz Chávez ganhar mais espaço de manobra. Talvez não dure muito, porém definitivamente a instabilidade no Mundo Árabe, até o momento, fez um vencedor indireto.

Apesar de todo o cenário econômico adverso, foi dado seguimento à política interna. Cresce a polêmica em torno dos presos políticos e quanto ao (des)respeito aos Direitos Humanos no país. A América Latina não representa a evolução política ante a ruptura, o desenvolvimento econômico e a democracia estável ante a instabilidade política e a volatilidade financeira? Parece que a Venezuela segue a passos largos no caminho contrário. A OEA já se posicionou, Chávez prefere seguir afirmando que o organismo funciona como um instrumento do imperialismo americano.

Quando sofreu a tentativa de golpe de 2002, Chávez tinha uma visão um pouco diferente da OEA, a mesma que trabalhou como intermediária entre o presidente e sua oposição na ocasião. Se há duas coisas que incitam o povo à revolta, a fome e a opressão, é melhor o Chávez abrir o olho. O sentimento é cada vez maior que o segundo critério se aproxima se de ser cumprido, faltaria o primeiro. Ainda bem que os olhos estão voltados para o Oriente Médio. Melhor assim, ao menos para Chávez.

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Categorias: Américas, Direitos Humanos, Polêmica, Política e Política Externa


1 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Vale lembrar que, ainda no tema "primavera árabe" e petróleo, que com o aumento do preço causado pela crise na Líbia, abriu-se uma divisão na OPEP, dos que queriam aumentar a produção para garantir abastecimento e os que estavam satisfeitos com a alta, especialmente a Venezuela. Interessante ver que um dos grupos mais poderosos do mundo, que depende de políticas coesas e específicas para garantir seus interesses, ainda pode sofrer divisões apenas pelos caprichos de políticas internas específicas como o Irã e Venezuela