Espírito de reconciliação?

Por

Eis que no funeral de Nelson Mandela, ícone mundial da reconciliação, vimos uma cena inédita ocorrer: um cordial aperto de mãos entre os líderes Obama e Raúl Castro – sob o olhar atento de Dilma, dos demais presentes e dos flashes mundiais.

E por que tal ato surpreende de forma a transformar-se em manchete internacional? Estados Unidos e Cuba, de fato, não possuem relações entre si desde 1961, dois anos após a chegada de Fidel ao poder na ilha, nacionalizando propriedades estadunidenses. Em 1962, portanto, Kennedy impôs um embargo econômico duradouro aos cubanos, o qual permanece até hoje e torna as relações entre os países tão tensas.

Raúl hoje propõe que ambos os países venham a “respeitar mutuamente suas diferenças e acostumar-se a conviver pacificamente com elas”, denotando a necessidade de flexibilizar as posições para viabilizar o diálogo. O próprio Obama reconheceu recentemente que tinha acabado de nascer quando Castro chegou ao poder, sendo “tolice acreditar que as medidas implementadas em 1961 ainda são eficazes hoje, na era da Internet e do Google”.

Ou seja, ambas as partes demonstram um certo grau de abertura ao diálogo que não se via há décadas. O aperto de mão da foto apenas reforça, em sua sutileza, a esperança de que as relações bilaterais Cuba-EUA sejam restabelecidas em um momento histórico propício a renovações e movimentos de reconciliação.

Os traços de rivalidade entre os países ainda são grandes e não se espera, ingenuamente, que um aperto de mãos resolva todos os problemas. Contudo, Raúl Castro tem colocado em prática – ainda que lentamente – reformas econômicas na ilha que podem facilitar esse diálogo com os “inimigos” do norte. Discussões bilaterais recentes sobre imigração e serviço de correio entre os países representam ainda um avanço histórico após tantos anos de distanciamento entre os países e seus líderes.

Que a chama do espírito reconciliador de Mandela mantenha-se viva após as cerimônias oficiais de despedida ao líder sul-africano que comoveram o mundo em tantos momentos. Uma porta, ou uma brecha que seja, talvez aberta ao diálogo entre Cuba e Estados Unidos é certamente significativa em nosso contexto atual, reavivando as expectativas de que 2014 seja um ano decisivo com relação a avanços nas negociações internacionais em todos os âmbitos. 


Categorias: Américas, Conflitos, Economia, Política e Política Externa


0 comments