Eram os deuses astronautas?

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Este é o título de um dos mais intrigantes e revolucionários livros a respeito do contato entre seres humanos e seres extraterrestres, escrito por Erich von Däniken: deuses desconhecidos imprimindo o conhecimento em civilizações atrasadas. O espírito de suas páginas viajou não só pelo passado longínquo, senão também pelas eras da História, quando homens se endeusaram para homens subjugar, como o fardo do “homem branco”, em sua missão civilizatória na África e Ásia, ao longo do século XIX. A questão, na atualidade, é quem são esses deuses astronautas e o que eles pregam?

O entrechoque de visões de mundo é parte indispensável da evolução do conhecimento, processo contínuo, que tanto provoca a curiosidade humana quanto promove melhorias no modo de vida. Quando uma visão tenta se impor às demais, limitam-se os horizontes do pensamento humano, produz-se maniqueísmos e se hipoteca o futuro. Da discussão para a prática: o que difere a repressão síria da repressão britânica? Por que gerenciar uma crise de países ricos com os instrumentos econômicos de países ricos?

Não admira que o mundo esteja um caos e atravessando uma das principais épocas de incerteza. A “primavera árabe” despertou nos povos o sentimento de liberdade, enfatizando, sobretudo, as melhorias sociais. Coincidentemente, há uma Europa que, embora livre, se levanta por causas sociais. Começou em Atenas, passou por Paris, e se acentuou em Londres. O continente perdeu seu vigor diante da atual crise financeira. Desemprego e desespero, uma combinação perfeita para a violência, basta uma fagulha para acendê-la. Com a violência, vem também a repressão.

Será que Ahmadinejad, Assad e Kadafi estão completamente errados em condenar o Reino Unido? Os deuses astronautas, do lado do Ocidente, condenam sistematicamente as atrocidades na Síria e na Líbia e agora fazem o mesmo? Dizem que é errado usar forças repressivas contra cidadãos e, ao mesmo tempo, prometem endurecer a postura em relação aos manifestantes de Londres. Os extraterrestres ocidentais estão combatendo as mesmas ideias que difundiram para os primatas que atravessaram Greenwich. A única diferença é que não se produziu estatísticas elevadas de morte.

E esta crise que apenas começou em 2008? Ela já foi considerada sob diversas perspectivas, particularmente, uma delas é precisa para defini-la estruturalmente, bem como suas conseqüências: nas palavras do renomado economista Joseph Stiglitz, a crise ideológica do capitalismo. Sabe-se, pois, que desde o término da Segunda Guerra Mundial, o modelo do crescimento dos Estados Unidos foi sustentado pelo endividamento crescente, criando instituições que lhes garantisse grana. Agora, o mundo cobrou a conta. Só que os países ricos ainda não perceberam isso; acham que o dólar é mais confiável, que os títulos da dívida norte-americana (T-Bonds) são seguros e assim por diante. Estas “pessoas realmente sérias”, na expressão irônica do economista Paul Krugman, perderam a noção de credibilidade, mas acreditam cegamente nas ideias econômicas alienígenas, como dogmas de tudo aquilo que é avançado e correto.

O que aprendemos e aprenderemos com estes deuses astronautas da contemporaneidade? Que civilização construiremos? São perguntas cujas respostas deixaremos para os escritores de amanhã.


Categorias: Conflitos, Economia, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

Giovani,Acho perigoso analisar "Primavera Árabe" e revoltas londrinas numa fornada só. Mas, entendo que se faça necessário, eu mesmo fiz para destacar justamente a diferença que é a democracia e o "rule of Law" que se manifesta exatamente na noção de endurecer. Pode parecer pouco, mas em se tratando de vidas humanas é muito.