Equador

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O 30 de setembro e os 4 anos da Revolução cidadã:

 

Primeiro, aclaremos o 30 de setembro. O presidente Correa recentemente em uma entrevista a Le Monde Diplomatique Brasil afirmou que não há dúvida de que o movimento foi um golpe de Estado, apóia-se em declarações de outros países latino-americanos. Os argumentos em contra a afirmação do presidente equatoriano também já são amplamente conhecidos, destacando-se o fato de Correa não ter deixado de governar o país em nenhum momento (mesmo no hospital) e da não tentativa de sua substituição. A meu ver, o mais plausível é uma via intermediária entre ambas as visões. A sublevação policial foi algo pensado, planejado e mancomunado. Não há dúvida. Não fora assim, seria impossível conceber um movimento tão coordenado. Por outro lado, não é claro que haja sido um movimento político com o intuito de golpe de Estado. Mais provável e possível, é que forças da oposição tenham tentado se vincular aos protestos policiais como maneira de desestabilizar Correo, e, no melhor dos cenários, criar condições para sua substituição.

Quando cheguei ao Equador tinha sérias restrições ao modus operanti do presidente. Carecendo de um olhar mais atento e embasado, tendia a entender-lo como um filho de Chávez. Aquele governante que pensava ser “maior” que o próprio país e governava de acordo a tal assunção. Desde o retorno à democracia, Correa é único líder que ainda apresenta conquistas que superam suas falhas, ou melhor, governos que não terminam em fracasso. Em 2006, não havia alternativas políticas. Os candidatos que se apresentavam eram os típicos de economias primárias dominadas por “coronéis”. Talvez o grande mérito de Correa tenha sido reconhecer a necessidade de um “choque de cidadania”; o país e o povo necessitavam o que ele está para propor. Mais que isso, em certos pontos a Revolução Cidadã corre em ritmo acelerado, dificultando sua assimilação e criando espaços para questionamentos da oposição (especialmente através de mídia).

Seguir como país baseado em uma economia primária traz benefícios. O problema surge justamente na distribuição dos mesmos. Equador era um país em que crescia a pobreza, o sistema bancário colapsava e a dívida externa se ampliava. Neste contexto, cabia a governos corruptos a manutenção do sistema. O orçamento do Estado estava subjugado ante aos credores externos. Em 4 anos de Correa, de acordo com ele próprio, os investimentos em educação, saúde e habitação mais que dobraram, ancorados em melhoras quantitativas: há mais escolas; mais alunos; mais livros e uniformes; e mais hospitais. Em 2008, foi aprovada uma nova constituição e eleições foram convocadas. Correa foi eleito, iniciando formalmente seu primeiro mandato após o novo marco constitucional. Dessa maneira, caso seja reeleito em 2013, estará garantido no poder por 10 anos (dois anos antes da nova constituição e dois mandatos após a mesma). Tempo suficiente para uma mudança profunda no status quo equatoriano?

O governo equatoriano segue dependente das exportações primárias, especialmente do petróleo. As instituições públicas passam por um processo de re-estruturação, incluindo o Poder Judiciário. Desde seu ativismo político enquanto jovem – Rafael Correa fundou o movimento Alianza (o hoje partido político majoritário Alianza País) – o mandatário era uma figura chave. De grande popularidade, conseguia personalizar uma causa. Sua equipe não gerava a mesma empatia e confiança junto aos seus seguidores. Talvez resida aí o perigo à continuidade da Revolução Cidadã. Até mesmo em um governo de um homem (como o do Brasil que teve Lula) em um determinado momento necessita construir ou inventar uma liderança capaz de levar adiante o projeto de um país. Dessa maneira, a meu ver, Correa definirá se apresentou um projeto para o país ou planejamento pessoal de poder. Melhor entrar na história como Lula, com méritos e garantia de continuidade de que como outros líderes latino-americanos, caracterizados mais pelo autoritarismo do que propriamente por conquistas populares.


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