Equador: reflexões finais

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Chega ao fim minha jornada no Equador. Minha percepção sobre o país e seu governo mudou bastante nesses últimos doze meses. Alguns fatos moldaram meus conceitos antes de chegar aqui, especialmente as escolhas de Rafael Correa em termos de política externa. Minhas lembranças imediatamente remetiam à expulsão da Odebrecht e a pressão contra a Petrobrás, ambas importantes empresas brasileiras. Além disso, a proximidade junto a outros governantes do denominado “socialismo do século XXI” também ajudam a criar uma visão negativa em relação aos recentes rumos políticos no Equador.

Tive o privilégio de viver no país e conversar quase que diariamente com diversas pessoas sobre variados temas. É incrível o poder de recuperação e o exercício de soberania popular que os cidadãos equatorianos demonstraram nos últimos anos. A instabilidade política criou diversos riscos ao pleno exercício democrático, em grande medida ajudando a perpetuar a desigualdade, a corrupção e uma economia volátil. Cabe o registro que em quase a totalidade das vezes que conversei com equatorianos sobre o atual governo obtive ao menos uma consideração positiva. Muitas vezes começava: “não gosto do Correa, mas ele iniciou projetos interessantes”. A personalidade do presidente ainda não se tornou um impedimento para que a imensa maioria da população do país reconheça seus feitos.

Um país pautado em produtos primários, construído por e para poucos. As classes políticas proeminentes limitavam-se aos militares (figuras recorrentes no âmbito latino-americano) e oligarquias. O ser pobre no Equador não difere do que se observa no Brasil, contudo a classe trabalhadora aqui se encontrava em situação de grande vulnerabilidade e a população carente pouco ou nenhum apoio encontrava nas iniciativas governamentais. Neste contexto, ser diferente representa quase um crime, nunca é fácil lutar contra os detentores do poder político e econômico de um país. Na minha visão, essa foi uma das principais premissas que fundaram o movimento que levou Rafael Correa à presidência do Equador.

Correa tenta centralizar o desenvolvimento do país – não só o econômico, mas o social também – em iniciativas governamentais. Os ministérios responsáveis pela economia, produção e desenvolvimento social ganharam destaque, um plano interministerial de bom viver foi criado, as populações vulneráveis viram parte de suas demandas serem atendidas. Enfim, muitas foram as conquistas da autodenominada “Revolução Cidadã”. Creio que até este ponto, inclusive opositores (aqueles sensatos) admitem os resultados positivos obtidos. O governo atual peca muito mais por seus excessos, especialmente ao fazer uso do imenso apoio popular que goza para limitar veículos de comunicação, expor críticos ao ódio popular e forçar uma institucionalidade de mão única. Assim, chegamos a um governo com bons resultados, mas que tende a não reconhecer as abordagens políticas que surjam fora de sua própria casta.

Um ano depois, após acompanhar a Revolução Cidadã, a insubordinação policial que quase virou golpe de Estado e mais recentemente a consulta popular apresentada pelo governo; deixo o Equador com um entendimento completamente diferente de quando cheguei aqui. Uma teoria que desenvolvi – longe tentar ser uma justificativa para os atos extremos de Correa – é que o comportamento do presidente é talvez a única maneira de ensejar espaços de discussão que incluam as necessidades e os pontos de vista dos excluídos. Os opositores, em muitos sentidos, utilizaram estratégias similares quando governaram o país. Contudo, Correa somou ao modus operanti político de sempre as suas diversas conquistas sociais, além do fortalecimento das instituições do país. Passada a fase de consolidação das conquistas dos últimos anos, virá o verdadeiro desafio: saber deixar o fluxo político continuar sem a perpetuação de um grupo no poder. A verdadeira conquista será impedir que a ambição política deixe em segundo plano as iniciativas para o desenvolvimento nacional. Possivelmente o país não está no rumo certo. A ironia reside no fato de isso colocar em risco tudo que foi conquistado. Talvez ainda haja tempo para repensar os próximos passos.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


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