Equador: a instabilidade política e suas lições

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Em 2005, Lúcio Gutierrez tornou-se o terceiro presidente forçado a renunciar a seu posto em menos de oito anos. O então chefe de Estado era acusado de corrupção, culminando na sua tentativa de fuga em um helicóptero com destino ao aeroporto de Quito. Não chegou a seu destino final, terminando abrigado na Embaixada do Brasil, já que intensos protestos populares e movimentações de militares não permitiram que deixasse o país. Por fim, teve seu pedido de asilo político aprovado pelo governo brasileiro e deixou o Equador.  

Se algum dia qualquer pessoa não compreender o significado de instabilidade política, estudar a história recente do Equador será um exercício definitivo. Impossível não entender o conceito depois disso. Em grande parte, denúncias ou rumores de enriquecimento ilícito, uso da máquina pública em benefício próprio ou corrupção geraram grande revolta popular, provocando, em grande medida, as inúmeras reviravoltas políticas equatorianas.  

Alberto Dahik, vice-presidente em 1995 e atualmente exilado na Costa Rica, evadiu do país antes que fosse submetido a julgamento em decorrência das denúncias de seu possível envolvimento em escândalos de corrupção. O acusado, em contrapartida, entrou com uma petição contra seu país na Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirmando que teve seu direito de defesa cerceado pelo Estado equatoriano. Atualmente se discute a anistia de Dahik, a partir de uma iniciativa de Correa.  

Em 2000, o então presidente Mahuad, frente à crise econômica que assolava o país, apresentou a proposta de dolarização da economia equatoriana, em outras palavras, extinguir a moeda nacional (o sucre) e adotar o dólar norte-americano em substituição. Viu o país tomado por protestos populares, unidos estavam indígenas, oposicionistas e sindicatos trabalhistas. Formou-se então uma Junta de Salvação Nacional, com participação militar, que dissolveu o Congresso (que já aprovara o plano de Mahuad), substituindo não só o presidente como todos os membros do legislativo. Como em um golpe do destino, o mesmo Gutierrez que esteve nos “braços do povo” – à medida que teve papel fundamental neste processo – teve um final ainda mais dramático.  

Rafael Correa tomou posse em 2007 e ruma a completar seu quarto ano (consecutivo) no poder. Um grande feito na história dos últimos anos de seu país. Na mais recente pesquisa, Correa atingiu 73% de aprovação popular, suficiente na visão de analistas para alavancar tal apoio na forma de nova vitória política – caso proponha um referendo que lhe permita um novo mandato presidencial. Seu governo tem paralelos com o modelo implementado por Lula no Brasil. O equatoriano, no entanto, assumiu o comando do país em um momento de maior instabilidade e fragilidade política em relação ao brasileiro, tendo consolidado uma Revolução Cidadã plenamente respaldada pelos setores populares.

Durante este período de instabilidade, o povo equatoriano não se escondeu. Poderia ter escolhido a passividade, a descrença ou o desengajamento político. Não obstante, preferiu expulsar “na marra” políticos que julgou como traidores da nação. Identificou em Rafael Correa, com seus méritos e defeitos, um via alternativa aos anseios populares, tão reprimidos e esquecidos por governantes anteriores. A democracia equatoriana, cerca de 10 anos mais velha que a brasileira, deixa o exemplo da mobilização popular efetiva contra a corrupção ou políticas que atentem contra seus direitos.

Faltam menos 10 dias para as eleições no Brasil. Mais do que um exercício cívico, tornou-se um verdadeiro martírio. Sobram acusações e candidatos pouco gabaritados, faltam debate e candidatos 100% “ficha limpa”. Caso, por exemplo, Gutierrez e Dahik fosse brasileiros, teriam sua vida política finita ou estariam vivendo um período de férias e reflexão antes das próximas eleições? Não poderiam logo ser nomeados ministros ou trabalhar na elaboração de leis no Congresso Nacional com o Tiririca? Afinal, “pior do que está não fica”.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


5 comments
Mário Machado
Mário Machado

Acho que agente zicou o Equador... rs.. (ok, não se brinca com coisa séria).

Mário Machado
Mário Machado

Bom Luís quando eu fui ao Equador o clima era realmente tenso, era 2002, fiquei hospedado no mesmo hotel em que a filha do então presidente, ou algum alto mandatário. Tinha um aparato de segurança tão massivo que me deixou tenso, de verdade. Morei anos em Brasília e nem em cúpulas vi uma segurança tão ostensiva. Abs,

Jéssica
Jéssica

Olá!!Ótimo texto!!Com relação ao Tiririca, é triste ver que o brasileiro vai votar nele não pelas propostas mas porque ele é engraçado , faz o povo rir.Se vc perguntar para algum eleitor dele quais são os projetos de tal candidato,ele certamente vai responder só que ele vai descobrir o que um deputado faz e mais nada!!E só pra complementar , logo atrás do Tiririca, em segundo lugar, está o Romário(é ele mesmo, o jogador)!!Ps: Sei que fugi um pouco do foco do texto que era o Equador!!Acompanho sempre o blog,Besos.

Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Me parece que aqui no Equador, em certa medida, foi isso mesmo que aconteceu. Os grandes defensores da democracia e combatentes da corrupção, terminaram sendo uma grande farsa. As críticas a Correa são grandes, mas o seu governo tem grande aceitação popular e legitimidade política.

Mário Machado
Mário Machado

Sabe uma coisa eu temo muito a mobilização social, por um motivo é fácil algum popular espertalhão usar da bandeira da moralidade e probidade para oferecer alternativas "não-institucionais" e ai para virar um regime totalitário é fácil. E no fundo não importa a cor do regime.Excelente texto sobre um pedaço de terra dos mais lindos do mundo!Abs,