Entrevista – Marcelo Rech

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Pessoal, como nem sempre estamos conseguindo manter os podcasts atualizados, procuramos inovar de alguma forma. A partir de agora, tentaremos realizar algumas entrevistas via e-mail com profissionais da área de Relações Internacionais especialistas nos assuntos que trataremos. E para começar esse novo procedimento, trouxemos o nosso novo parceiro, o editor do InfoRel, (consulte o site aqui) Marcelo Rech. O título desta entrevista é: Mídia, relações internacionais e a importância da informação.

Todos nós, da Página Inernacional, gostaríamos de agradecer imensamente ao Marcelo tanto pela parceria como pela concessão desta importante entrevista. Muito obrigado!


Currículo: Marcelo Rech tem 39 anos e 20 de profissão. É jornalista com especialização em relações internacionais, estratégias e políticas de defesa e terrorismo e contra-insurgência. Foi correspondente internacional, coordenador de análise política da Fundação Getúlio Vargas e é o editor do InfoRel há cinco anos.

Perguntas:

1) Quais as principais convergências e divergências entre o campo de estudos do Jornalismo e o das Relações Internacionais?

Sinceramente, acredito que existam muito mais convergências. São áreas afins, que têm muito a ver. Na minha formação, sempre privilegiei o jornalismo internacional. Entendo que evoluíram muito. O Brasil firmou-se como protagonista das relações internacionais e isso também exige uma maior preparação por parte de seus jornalistas. Eu procurei me especializar na área para entender melhor como é o processo como um todo. Não dá para um “generalista” cobrir a política externa. Um problema que ainda observo diz respeito ao comportamento dos nossos diplomatas. Em sua maioria, se consideram os únicos em condições de analisar e discutir política externa. Também em algumas universidades, temos aqueles “deuses” que se acreditam donos da verdade quando o assunto é relações internacionais. Eu procuro analisar da forma mais simples para que os leitores possam, em poucas palavras, ter uma idéia do que se passa. Minhas análises formam um recorte, apenas um recorte e assim devem ser as demais análises.

2) A mídia presta uma contribuição benéfica ou é prejudicial aos fenômenos em curso nas relações internacionais?

Apesar de alguns absurdos, é e sempre será benéfica. Precisamos explorar cada vez mais o tema. Quanto mais análises produzirmos, mais textos, mais coberturas fizermos, melhores seremos. Os meios de comunicação entenderam que os temas internacionais são tão relevantes quanto os assuntos internos. Atualmente, muitas coisas que se passam em outros continentes impactam a nossa vida, o nosso dia-a-dia. Não há tema que possamos dizer: não temos nada com isso. Cedo ou tarde estaremos implicados, para o bem ou para o mal.

3) Como jornalista, o senhor poderia nos relatar uma das experiências mais marcante de sua profissão?

Tive algumas experiências interessantes, mas destaco as viagens ao exterior como as principais. Nada substitui o contato direto com determinadas realidades, como da Colômbia onde estive em acampamentos das Farc, com ex-guerrilheiros. No Peru, pude conhecer melhor como o país conseguiu impor o fim do terrorismo do Sendero Luminoso. Do Panamá, escrevi diretamente do Canal. Uma de minhas maiores frustrações foi a viagem que fiz a Cuba. Era algo que queria muito e pelo qual corri atrás de recursos. Estive por uma semana em Havana, mas não me deixaram falar com nenhuma das pessoas que havia proposto. Todo o tempo, gente do governo me monitorava, acompanhavam minhas entrevistas. Eu cheguei a pensar em voltar antes e só não o fiz porque teria de pagar uma multa altíssima à companhia aérea. Foi decepcionante em todos os sentidos.

4) De que maneira surgiu o InfoRel? Poderia nos contar mais sobre essa agência de informação?

O InfoRel nasceu há cinco anos como uma proposta de reunir notícia e informação num único lugar. Eu havia trabalhado muitos anos na Comissão de Relações Exteriores da Câmara e via o quanto de informação era ignorada pelos meios convencionais. Atualmente, o InfoRel é lido em 86 países apesar de seu conteúdo ser totalmente em língua portuguesa. Há ainda muito para ser feito. Não é fácil nem simples ser empreendedor no Brasil. Os obstáculos são enormes, mas aos poucos vamos sedimentando o projeto.

5) Qual a sua opinião sobre a difusão da informação via internet? Até que ponto as fontes são confiáveis? Os blogs prestam uma contribuição positiva para manter o leitor informado?

Há de tudo nesse meio, mas no final, os que sobrevivem são aqueles que contam com a credibilidade dos leitores. As pessoas conseguem enxergar o que é bom e o que não é. É claro que a velocidade com que as informações transitam exige um cuidado maior. É muito mais fácil fazer as coisas hoje em dia. É possível montar um jornal ou uma revista sem sair de casa e sem falar com ninguém, afinal tudo está na internet. Quando tivemos o boom da internet, muitas coisa se criou, mas poucos ficaram. Eu espero que o InfoRel consiga sobreviver às dificuldades e chegue a ser uma referência latino-americana para os temas das relações internacionais e defesa. Sinto que o pior já passou e que hoje, os que nos acessam o fazem por confiar em nosso trabalho. Temos consciência de que somos muito pequenos ainda e que temos de melhorar muito, mas o fato de estarmos cientes disso nos dá alguma vantagem. O importante é que as pessoas nos percebem e ao nosso esforço. Eu sinto isso.

6) Considerações finais.

O InfoRel não nasceu para concorrer ou competir com os demais, mas para somar-se. Sempre digo que ninguém precisa deixar de ler isso ou aquilo, mas se puder agregar o site à sua leitura e às suas pesquisas, então estamos cumprindo com a nossa missão. As relações internacionais são algo complexo e difícil e o nosso compromisso é o de nos atualizarmos sempre para tentarmos fazer um site melhor a cada dia.


Categorias: Mídia


1 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Ótima entrevista ! É sempre bom obter informações por parte daqueles que trabalham diretamente com Jornalismo nas Relações Internacionais !Fico feliz em saber que o contato com o Marcelo Rech tem sido produtivo !Até mais ! ;)