Entre tapas… e beijos?

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Existem limites à liberdade de expressão? Talvez essa seja uma das questões mais complexas em nosso mundo atual, em que a difusão da informação ocorre (quase) instantaneamente e em cuja realidade virtual as fronteiras parecem não existir. Com o lançamento da nova campanha de impacto da marca italiana Benetton, este assunto merece novamente destaque na mídia e causa polêmica.

Amplamente comentada na internet essa semana, a campanha da grife se intitula “Unhate” (“Deixe de odiar”, em uma possível tradução) e apresenta fotos de grandes (e rivais) líderes mundiais aos beijos. Entre si! As cenas inimagináveis de carinho (?) envolvem Obama e Chávez (foto acima) ou Hu Jintao; os líderes das rivais Coréias; os europeus Merkel e Sarkozy; o premiê israelense e o líder palestino (foto abaixo); e até o Papa e o imã egípcio.

As reações foram automáticas. A China censurando as fotos; a Casa Branca criticando fortemente a campanha; o Vaticano movendo ação judicial contra a grife; e por aí vai… consequências absolutamente previsíveis e seria ingênuo que uma marca do porte da Benetton acreditasse que a resposta das autoridades não seria imediata ao lançamento de uma campanha deste porte.

Ao apresentar as principais divergências globais atuais em “convivência amorosa”, a intenção teórica/política/retórica da marca é incentivar a tolerância e a busca pela paz no cenário internacional (até uma fundação sem fins lucrativos foi fundada com este propósito!). Na prática, o objetivo é menos nobre, mas não menos compreensível em uma lógica de mercado: ao alcançar novamente os holofotes midiáticos, a Benetton espera agora dar novo impulso às suas vendas, principalmente entre o público jovem.

Voltando à pergunta inicial do post, será que podem ser estipulados limites à liberdade de expressão? Questionamento interessante atribuído a Benjamin Franklin é o seguinte: “Os abusos da liberdade de expressão devem ser reprimidos; mas a quem teríamos a coragem de delegar esse poder?”. Esta parece ser a parte mais delicada da discussão. Ao utilizar a imagem dos líderes representados nas fotomontagens sem a autorização (que nunca viria) dos mesmos, a marca reacende a polêmica sobre a ética nos meios de comunicação.

Entre a (indesejável) censura e a liberdade de expressão absoluta existe um amplo meio-termo em que cada ente (indivíduo, Estado, empresa, etc.) deve sempre buscar a razoabilidade para estabelecer os critérios de divulgação das próprias ideias, campanhas e perspectivas. O direito à liberdade de expressão deve vir acompanhado do dever de saber utilizar-se desta em consonância com os princípios de respeito mútuo e tolerância. Princípios que (paradoxalmente?) a marca afirma querer propagar exatamente por meio de sua campanha.


Categorias: Mídia, Polêmica