Entre palavras de amor e ódio, há dependência

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Há muito se estima o papel que a China assumiria no sistema internacional. Uma população de aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e um crescimento do PIB que continua a surpreender qualquer um (ano passado atingiu 9,5%). Um dragão de extensão incomensuráveis e dimensões que parecem infinitesimais tem despertado um sentimento que os Estados Unidos de Obama não esperavam reviver desde uma adolescência muito remota, mistos de amor e ódio.

Como era de se esperar, a ascensão da China tem provocado certo desconforto no governo estadunidense, que alimenta uma pitada de ódio. Isso poderia ser atribuído às posturas divergentes referentes a direitos humanos e a conflitos (como a questão das Coreias) ou mesmo a uma apreensão quanto às capacidades militares não muito divulgadas – exaltada no teste nada escondido de caças furtivos durante a visita da comitiva estadunidense no dia 11.

Apesar de ser possível reconhecer uma conjunção de fatores que justifica essa postura estadunidense, o fato da China estar clamando sua posição no sistema internacional e não mais estar satisfeita como ser aclamada como nova potência, incomoda, e muito. Em artigo essa semana, a revista The Economist defendeu que o governo chinês tem agido de maneira irresponsável tendo sempre em vista o declínio do poderio estadunidense e que era preciso lembrar ainda que os Estados Unidos detenham um poder militar ainda não-equiparável.

O que a revista não considerou é que o poder econômico chinês seria capaz de solapar qualquer superioridade americana. Assim, o ódio rapidamente transforma-se em amor. A dependência estadunidense da China é tamanha que a pressão interna por um fim nas baixas taxas de câmbio é enorme. Estima-se que os investimentos dos EUA na China em 2010 foram de aproximadamente 60,5 bilhões, enquanto que os investimentos chineses nos Estados foram de apenas 4,4 bilhões. Uma diferença muito significativa para ser desconsiderada em qualquer cálculo estratégico.

Um cálculo que Obama não tem ignorado. Dois encontros bilaterais visando fortalecer a confiança entre ambos foram realizados em menos de duas semanas. O primeiro ocorreu no dia 11 e o outro foi realizado hoje entre Obama e Hu Jintao. Os temas não são novos: flexibilização do Yuan, uma postura mais rígida sobre direitos humanos e incentivos a investimentos estadunidenses na China.

Como era de se esperar, não se destrava um impasse em apenas uma tarde. O diálogo já é um passo representativo na relação entre esses dois países e isso deve continuar sendo uma característica marcante para evitar maiores atritos. Uma relação que parece oscilar entre o amor e o ódio, na realidade oscila entre dependência e ódio, despertando sentimentos que os estadunidenses há muito pensavam estar esquecidos.

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