Entre o comércio e as armas

Por

Um resumo dos movimentos das últimas duas semanas da política externa brasileira conduz a basicamente dois eixos: o comércio e as armas. Por um lado, o Brasil trava um litígio na OMC com os Estados Unidos acerca do algodão e sofre ameaças de boicote das importações chinesas do minério de ferro, por outro, mais do que lutar pela proscrição de armas nucleares, luta pelo desarmamento.

Em específico, no que tange ao comércio, o Brasil entrou em desacordo com os Estados Unidos porque o governo norte-americano mantém subsídios e garantias considerados ilegais, pela OMC, a produtores de algodão. Isto prejudica os produtores nacionais, já que, por não receberem os mesmos subsídios, exportam o produto em desvantagem no comércio internacional. Com relação à China, a Cisa (Associação de Ferro e Aço da China) propôs que seus membros boicotassem às três grandes produtoras mundiais do minério de ferro – uma delas é a Vale –, em decorrência de possíveis aumentos de até 90%. O boicote duraria dois meses, tempo que os atuais estoques chineses podem abastecer a demanda interna. Esta questão ainda perdura.

No litígio com os norte-americanos, a OMC já autorizou o governo brasileiro a adotar medidas de retaliação sobre bens e sobre propriedade intelectual. O chanceler Celso Amorim cobrou uma resposta concreta por parte dos Estados Unidos. Este, por sua vez, fez uma proposta: ofereceu criar um fundo para o setor brasileiro de algodão, suspender subsídios e reconhecer o Estado de Santa Catarina como uma área livre da febre aftosa. Por causa dessa proposta, nosso país resolveu adiar a retaliação por 60 dias, até que se possa chegar a um acordo definitivo. Estamos confrontando os norte-americanos? Nem um pouco.

Agora é a vez das armas. Recentemente, muito se tem comentado acerca das aquisições venezuelanas de armamento russo – a questão já foi bem apontada pelo Raphael em outro post. Ora, a Venezuela está se armando cada vez mais, isto não ofereceria perigo ao Brasil? Não deveria governo brasileiro se pronunciar, intervir? Duas ponderações de cada lado precisam ser levantadas. Do lado venezuelano, sua raiz histórica impeliu o país em sua busca pela liderança bolivariana assentada na riqueza mítica do petróleo (hoje a economia não vai lá tão bem), combinação essa que pressupunha a grandeza. Chavez retoma esse pensamento, acrescido à necessidade pragmática de se defender do narcotráfico. Do lado brasileiro, nosso acumulado diplomático nos ensinou a respeitar os princípios de não-intervenção e de respeito à soberania.

E o Irã, o pomo de discórdia da política externa do Brasil? O governo iraniano provoca, chegando a dizer que sancionar as exportações de petróleo é piada, e o governo brasileiro mantém a postura de negociação, tão contestada. Muitos falam que estamos desafiando os Estados Unidos, como fizemos em Honduras. Mera falácia. Em política internacional, uma posição contrária não é necessariamente uma posição de afronta. Não estamos afrontando o governo norte-americano, mas seguindo estritamente um dos princípios mais consagrados da nossa inteligência diplomática: o princípio da autonomia decisória. Um país que aspira grandeza e ser um importante player no cenário internacional, tem que decidir por si só os seus passos no mundo – em respeito aos demais, é bem verdade.

O comércio e as armas não representam uma guinada em nossa política externa. No ambiente internacional, nosso barco continua a ser remado pelos princípios de nossa história com vistas ao destino de potência imaginado em nossos sonhos políticos. Sonhos esses que ganham inclusive o respaldo de acadêmicos renomados, com obras publicadas entre 1970 e o início dos anos 1980, como Martin Wight e Jean-Baptiste Duroselle.


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa


0 comments