Entre o 8N e o 7D

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Não, esse post não trata de um daqueles problemas matemáticos e exercícios de lógica de vestibular. Mas trata de um problema político com bastantes elementos envolvidos. 8N e 7D não são variáveis matemáticas, mas variáveis políticas, referências a duas datas importantes para o país, que mostram a situação complexa que nossos hermanos argentinos estão vivendo. 

O primeiro, referente a ontem, 8 de novembro, o dia de um grande protesto/ panelaço em todo território nacional. Organizado principalmente pelas redes sociais, o movimento incentivou as pessoas a saírem às ruas para protestar contra a situação atual. As críticas eram diversas. Insatisfação com a segurança pública, inflação, rumores de um futuro projeto de “re-re-eleição” de Cristina Kirchner, liberdade de imprensa e etc. 

De um lado, tinha-se os veículos do grupo Clarín (uma espécie de grupo Globo argentino) e o prefeito de Buenos Aires, de oposição, apontando o evento como o maior protesto da população desde o período de redemocratização no início dos anos 1980, e demonstrando a insatisfação com Kirchner. De outro, o governo minimizando a importância do panelaço e vinculando-o à Sociedade Ruralista, ao prefeito portenho e à oposição. 

Mas o que marcou mesmo o movimento foi a pluralidade, em termos de motivações das pessoas (clique aqui para uma reportagem interessante do La Nación sobre isso), e a baixa identificação com os partidos. Nem todos queriam o fim do governo Kirchner e aos que queriam não havia unidade. Muitos apenas protestavam por uma situação melhor. Da mesma forma, os que compareceram também fazem parte daquele grande grupo de 46% dos que votaram contra Kirchner nas últimas eleições. Parte de uma classe média insatisfeita com o conjunto das políticas do governo e que acabaram virando a base do capital político do grupo Clarín e da oposição. 

E o que isso tem a ver com o tal 7D? 

O 7 de dezembro é outra variável delicada nessa equação política complicada. Esse é o dia do ultimato. O fim do prazo para que o grupo Clarín se adeque à “Ley dos Medios” (aqui para ela na íntegra), que muda a regulamentação dos serviços audiovisuais do país. Em outras palavras, que limita o volume de controle que as empresas podem ter sobre os meios de comunicação. O governo basicamente dividiu o campo audiovisual em 3. Uma parte para o setor privado, outra para meios educativos e das comunidades e a terceira para o governo. Já publicada em 2009, ela teve problemas para entrar em vigor porque o Clarín bateu os pés. Agora não tem mais jeito e o grupo tem que vender parte de seus 240 sistemas de TV a cabo, 19 rádios AM, FM e 4 canais de TV aberta, ou o governo irá leiloá-los. 

Não é novidade para ninguém que Kirchner e o Clarín não se misturam. Ora, se esse grupo tem usado o 8N para tentar mostrar que o governo está enfraquecido, 7D de Cristina também é uma forma de enfraquecer politicamente o grupo opositor e abrir espaço para maior influência do governo nessa área. Sem entrar em juízos de valor específicos, a medida tem efeitos políticos para o jogo de poder nacional. E, da mesma forma, o 8N pode trazer um capital político para um grupo anti-Kirchner futuramente. 

Mas, aí que mora outro problema. Como a própria presidente colocou em seu primeiro discurso após os protestos, a oposição está desarticulada e não é capaz de apresentar um projeto de governo para bater de frente com o oficialista.

O cenário argentino é complexo. A inflação disparou e está sendo maquiada. Vive-se sob uma política de compra de dólares altamente restrita. Sob o discurso de democratização da mídia existe a busca de limitar um monopólio e fortalecer o governo. E sob os protestos gerais contra o governo tornam-se capital político para uma suposta oposição sem projeto e um grupo de mídia antigoverno. Ao final das contas, com esse número enorme de variáveis, entre o 8N e o 7D parece existir mesmo uma equação matemática muito complexa de desvendar…

[Para mais, 1 e 2


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