Entre a Prudência e os Exageros

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“Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”


As recentes posições do presidente Lula frente ao regime cubano têm sido alvo de intensas críticas pela mídia brasileira, internacional e por outros países. Tudo começou com a desaprovação evocada por essas partes quando Lula, em viagem à ilha de Cuba, se absteve de declarar sobre a morte do prisioneiro político dissidente, Orlando Zapata. Isso já era material suficiente para a mídia (nacional e internacional) literalmente deitar e rolar, publicando inúmeros artigos de opinião negativos, reportagens sobre o ocorrido e entrevistas com especialistas que condenavam esse posicionamento.

Apesar de todo o bafafá internacional, a omissão não era problema. O que poucos compreendem é que no campo da política internacional existem alguns princípios que regem a política externa de um Estado, e mesmo que não possamos atribuir as suas ações o adjetivo da racionalidade em todos os casos, há ainda certas diretrizes que os governos seguem na forma de se projetar para o exterior.

As tradições conflitantes na história brasileira eram de modo geral o chamado idealismo, política externa e alinhamentos baseados em ideologias e valores dos países com os quais o Brasil se relacionava; e o pragmatismo, alinhamentos baseados em mais do que valores, em condições gerais e estratégicas para o país.

A política externa do governo Lula segue no geral o chamado pragmatismo. Então, o não opinar em determinado assunto é uma forma de não se envolver em dadas questões internas desses países para evitar atritos nas relações diplomáticas, já que é visada uma integração entre os países da América Latina.

Mas aí vão dizer, e a questão de Honduras? Nesse caso o Brasil se posicionou e opôs-se veementemente ao ocorrido. É interessante notar o quão diferente e particular o episódio em Honduras foi. Assim, o Brasil foi envolvido diretamente (já que o “coitado” do Zelaya se refugiou na embaixada brasileira) e presenciou um escancarado golpe de Estado. Mesmo que o Brasil defenda liberdades democráticas, o regime cubano, por autoritário que seja, já estava lá quando da transição democrática brasileira e das novas iniciativas de cooperação, sendo que qualquer iniciativa contra Cuba poderia minar projetos de integração.


Mas infelizmente, os eventos não pararam por aí. As coisas pioraram um pouquinho quando Lula fez aquela declaração citada no início. Se ele tentava seguir os passos de Maquiavel, com base na prudência na política, essa declaração fugiu completamente ao objetivo e abriu margem para interpretações dúbias e questionamentos. Com isso, rejeitou propostas de dissidentes cubanos e contradisse até mesmo seu histórico particular, fazendo aquela finalidade que a omissão tinha se perder com a manifestação.

Num momento de intensas críticas a essa postura do governo brasileiro, essas frases não caíram bem. A omissão é justificada. A declaração, não. Passando para um novo patamar no cenário internacional, o Brasil ainda busca, entre a prudência e os exageros, o ponto ideal para sua política externa.


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