Entre a lança de Ares e o escudo de Atena

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Mais de 2 mil após o fim da civilização grega, muitas vozes e lembranças dos gregos perduram nas odisséias de nossa era. Uma era de epopéias confusas, de cujos versos se retiraram a inspiração guerreira e orgulhosa e de heróis feitos de façanhas sem proeza. Na dança das gerações, o tempo, como uma imagem móvel da eternidade dos deuses, traz de volta à arena política contemporânea a violência imprevisível da lança de Ares contra a sábia justeza do escudo de sua meia-irmã, Atenas. Divididos entre a força e a sabedoria, os líderes mundiais e as suas respectivas nações enfrentam grandes desafios globais e particulares para escreverem o mito a ser narrado no futuro. Enumeremos três situações.

Que tal partirmos da iniciada Cúpula de Copenhague, do nosso tão preconizado futuro comum? Talvez, proteger as gerações futuras, contendo os danos antrópicos praticamente irreversíveis ao meio ambiente, já tenha deixado de ser sábio. A COP-15 está morrendo em seu nascedouro. Entretanto, do fracasso é preciso se encontrar o sucesso: produzir um novo Protocolo de Kyoto é completamente desnecessário, o ideal é abandonar a idéia da redução das emissões de gás carbônico e investir no desenvolvimento de alternativas energéticas, conforme um artigo recentemente publicado no Der Spiegel (aqui). Tamanha dimensão da persistência no erro da redução que atualmente um investimento de 53 bilhões de euros conteria o aquecimento global por apenas uma hora. Ares reina resoluto sobre o meio ambiente e guia o imaginário político egoístico de muitas lideranças mundiais; a China, por exemplo, descobriu uma maneira muito interessante de resolver a problemática ambiental: erguer muralhas. À José Simão, “É mole? É mole, mas sobe!”.

No Irã, Ares e Atena travam uma batalha épica. Todos sabem que o povo iraniano (ou irado, não é?!) está nas ruas desde junho, sobretudo, graças a inúmeros protestos encabeçados por estudantes. Se antes os motivos para o descontentamento eram os suspeitos resultados das eleições presidenciais, agora a educação se transformou no campo de batalha. De um lado, a intensa sede pelo conhecimento laico, de outro, a repressão (intelectual e física) sob o amparo do fundamentalismo religioso. Ora, para Khamenei, as ciências humanas são “instrumentos coloniais do Ocidente para conquistar mentes muçulmanas”. Novamente, o povo tem a chance de decidir nas ruas o destino do país, passando da revolta para a revolução. Novamente, as autoridades iranianas abandonam a misericórdia para com os manifestantes. O escudo para o povo, a lança para as autoridades.

Mal faz uma semana que o novo plano estratégico dos Estados Unidos para o Afeganistão foi aprovado e já podemos encontrar algumas repercussões. O general McChrystal quer a vitória por meio dessa estratégia; o Taleban quer apenas sobreviver, segundo Haji Abdullah, um líder local do grupo. Evidentemente, estamos no terreno das incongruências: ambos querem a lança de Ares e o escudo de Atena, algo bastante ambicioso. Os Estados Unidos primeiro ataca com a lança, extremamente convictos da capacidade de defesa de seu escudo, já os talebans defendem-se com o escudo e lançam ataques intermitentes contra os estrangeiros. Na ponta da lança norte-americana, brilha a democracia e os direitos humanos e o escudo é encouraçado pela posição de liderança mundial; na lança taleban cintila o heroísmo da soberania e o escudo é revestido pela simpatia popular. Os norte-americanos guerreiam confiantes e incertos (quanto tempo durará a guerra?) e os talebans voam como uma fênix da resistência em território afegão.

(Vejam também aqui um interessante artigo de Friedman sobre a campanha norte-americana no Afeganistão.)

Pois é, pessoal, na apoteose contemporânea da política mundial, Ares e Atena, deuses atemporais do passado, se apresentam como figuras indispensáveis. E, interessantemente, uma acompanha a outra, afinal são semi-irmãs. Os recursos à violência e à sabedoria, ora como os extremos, ora como os meios, são empregados recorrentemente nas relações internacionais, fazendo ecoar uma antiga lição de Maquiavel no espectro das lideranças mundiais: é preciso ser, simultaneamente, raposa para reconhecer as armadilhas e leão para assustar os lobos. A lança, o escudo ou os dois: uma escolha perene.


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