Entre a espionagem e a cooperação

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Foi-se o tempo em que havia uma nação contra a guerra de reconquista da potência colonialista. Simon Bolívar, estivesse vivo, estaria preocupado com os rumos da antiga Grã-Colômbia. Um fato novo surgiu na relação Equador-Colômbia. Já não bastasse os espiões russos nos Estados Unidos, essa semana o jornal equatoriano “El Comércio” divulgou que o governo colombiano, supostamente, estava espionando o presidente do Equador, Rafael Correa. Vale lembrar, que aqui mesmo na Página Internacional, já tratamos de denúncias contra o Ministério de Defesa Colombiano (DAS, sigla em espanhol).  

Ainda segundo o “El Comércio”, o DAS interceptou, em 2008, chamadas telefônicas de Correa, assessores do presidente, militares, políticos e empresários equatorianos. Uribe, por outro lado, afirma tratar-se de um círculo de pessoas mal-intencionadas trabalhando contra o restabelecimento de relações plenas com o vizinho. Inclusive, o presidente eleito na Colômbia, Juan Manuel Santos, teria o firme propósito de manter a irmandade com o país, uma união contra o narcoterrorismo (assim denominado por Uribe). Vale lembrar ainda que os países somente retomaram suas relações diplomáticas no final do ano passado, depois do ataque do exército colombiano a um acampamento das FARC no Equador, ainda no início de 2008.  

Rafael Correa iniciou investigações para apurar as denúncias, expressando que, uma vez comprovadas as mesmas, a presidência da República se verá obrigada a romper novamente as relações diplomáticas com a Colômbia. Ricardo Patiño, ministro de Relações Exteriores equatoriano, enviou uma carta a seu equivalente colombiano pedindo maiores informações. Os questionamentos vão ao mesmo sentido de denúncias submetidas pelos governos equatorianos e venezuelanos, segundo as quais seus oficiais diplomáticos em Bogotá haviam sofrido algum tipo de espionagem também em 2008. O objetivo, nestes casos, seria identificar possíveis interligações entre os representantes oficias dos países vizinhos e grupos criminosos agindo em território colombiano. Até então, no entanto, não havia denúncias de atividades de inteligência em território equatoriano.  

Juan Manual Santos é um dos principais personagens das antigas querelas entre os governos dos dois países. Afinal, foi ele, como Ministro de Defesa, que ordenou que o seu exército trespassasse a fronteira entre ambos, em busca dos combatentes das FARC. Rafael Correa, ao contrário de Hugo Chávez, adotou posição conciliatória quanto a sua eleição, oferecendo uma ligação para parabenizá-lo. Estas questões de espionagem mais parecem atividades da Guerra Fria, totalmente inoportunas entre ditos países-irmãos. A atuação da presidência da República do Equador tem uma linha-mestra: a melhora das relações com os Estados Unidos, o que inclui a Colômbia. 

Enquanto seguem as investigações sobre a possível espionagem pelo Serviço de Inteligência Colombiano dentro do território equatoriano, nos resta fazer uma reflexão. A melhora do diálogo Equador-Estados Unidos, após a eleição de Obama, representaria um caminho similar para Santos no que concerne a relação Equador-Colômbia? Hillary Clinton passou pelo Equador falando em expandir a agenda de cooperação com esta região da América do Sul, incluindo segurança, mas não se restringindo a esta temática. Em seu discurso no Centro Histórico de Quito no começo de Junho, Clinton não mencionou a palavra terrorismo, drogas ou terrorismo e aludiu a Colômbia somente para defender a importância do investimento na vacinação infantil. Uribe parece não estar exatamente na mesma página. Segurança foi o carro chefe de seu governo e será seu legado histórico.  

Os Estados Unidos bem sabem que atividades de Inteligência são parte integrante do processo de se formular políticas em Segurança e Política Exterior. A diretriz parece, contudo, apontar para outras temáticas e prioridades, deixando estas atividades às escuras, caminho evidentemente mais inteligente e efetivo. Santos, em âmbito regional, terá o desafio de oferecer também ao Equador uma nova diretriz para a cooperação bilateral, fugindo do uníssono discurso contra o narcotráfico (ou narcoterrorismo, para o governo colombiano). Correa está satisfeito com a nova porta aberta ao diálogo com os norte-americanos, o mesmo parece valer para os colombianos. A denúncia do “El Comércio” ainda não chegou ao capítulo final, mas deve ser a última cena de protagonismo de uma visão que, se espera, termina junto com a presidência de Uribe.


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