Entra e sai

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Uma antiga profecia mexicana afirma que os territórios conquistados pelos EUA durante seu processo de expansão serão um dia retomados, devolvidos aos velhos donos graças a mística que protege tais terras de ocupações feitas por outros povos. A crescente presença latina no país vez ou outra voltam a ser debatida, quase sob uma ótica de medo de que de alguma forma tortuosa essa profecia se cumpra.

A “invasão latina” é um fenômeno de efeitos colaterais, que causam problemas como a xenofobia e a intolerância, problemas de superpopulação e violência urbana. Mas independente das opiniões sobre a imigração nos EUA, principalmente a ilegal, é inegável a importância dessas pessoas na construção econômica do país, principalmente pela garantia de uma saudável força de trabalho e da vontade individual de alguns, baseados no “sonho americano” de oportunidade para todos, mesmo que esse sonho por muitas vezes não passe disso.

Do outro lado do atlântico, a Europa sofre exatamente de um fenômeno contrário ao dos EUA. Com uma natalidade menor do que o mínimo para a garantia da reposição populacional e sem vizinhos com sorte diferente, alguns países europeus já beiram a escassez de força de trabalho, sobretudo em posições de serviços e da indústria que necessitam de profissionais jovens e de pouca instrução, completamente o oposto das populações locais, bastante instruídas e envelhecidas. É nessa realidade que vimos nos últimos anos políticas de apoio a imigração geridas por diversos países, que oferecem vantagens a famílias e casais dispostos a se mudarem em definitivo para onde falta gente. Também observamos um forte fluxo de imigrantes oriundos de países em desenvolvimento, graças as melhores condições de vida e a grande oferta de trabalho para atividades não especializadas.

Até aí nenhuma novidade. Notamos na Europa uma troca entre a necessidade econômica diante da nova realidade demográfica dos países desenvolvidos e a imigração de trabalhadores em busca de uma vida melhor. Entretanto, essa troca está longe de ser uma relação simbiótica e pacífica. A imigração tem que conviver com o ônus da chegada descontrolada de uma nova população e o ódio injustificável da xenofobia, fazendo com que parte dos habitantes nativos vitimados pela imigração alguns grupos nacionalistas entrassem em rota de colisão com os estrangeiros. Culpando-os por males que vão desde o aumento da criminalidade á crise que vive a Europa, alguns defendem até mesmo a expulsão de estrangeiros e a proibição da entrada de pessoas, ganhando novos adeptos a cada evento que acirre ainda mais a tensão social que fica latente nesse tipo de cenário.

Independente das razões sensatas ou preconceituosas com os imigrantes, a Europa segue precisando da força de trabalho importada. Chegamos a uma bifurcação, em que o reconhecimento da necessidade de crescimento populacionais e de força de trabalho e os problemas  da imigração descontrolada entram em choque e colocam em xeque diversos governos da região, que devem considerar com carinho qual seria a melhor saída para um problema aparentemente sem solução que agrade a todos.

Assim, podemos ver em um único dia duas manchetes completamente opostas. Por um lado, países do leste anunciaram essa semana que será facilitada a confecção vistos de trabalho para diversos países latinos a partir desse ano, visando facilitar a chegada de novos trabalhadores. Em outra, a  Suíça ameaça dificultar a entrada de imigrantes, limitando drasticamente o número máximo de estrangeiros que podem entrar no país por ano.

Entre o discurso dos nacionalistas, há também a preocupação em relação a proteção da cultura e da sociedade nativa dessas regiões, diante do que chamam de “invasão estrangeira”, lembrando os medos profetizados pelos mexicanos de reconquistarem o que lhes foi usurpado pelos EUA: a reconquista por meio da invasão de imigrantes. Mais realista do que tais preocupações que justificam preconceitos, há a certeza de que com os novos índices demográficos teremos uma Europa cada vez menos europeia, a despeito da vontade de determinados grupos. A não ser que políticas anti-imigração ganhem força, fato que teria uma reação interessante nas economias regionais, provavelmente negativa. Veremos isso nos próximos capítulos da guerra pela imigração.


Categorias: Europa, Polêmica


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