Engenharia demais?

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Há cerca de dois anos eu li um artigo sobre geoengenharia. Tratada justamente da crescente preocupação com o Meio-Ambiente e das possíveis ameaças que poderia ser geradas a partir das mudanças climáticas. O cenário já não era nada promissor: derretimento das geleiras e calotas polares; nível dos oceanos aumentando; alteração dos ciclos migratórios de diversas espécies; entre tantos outros efeitos provindos da tendência climática apresentada. A partir disso, o artigo questionava a possibilidade de atingirmos um ponto limite, o qual demandaria a adoção de medidas extremas.

A conclusão que se chegava, naquele momento, é que nenhuma opção poderia ser descartada. Qualquer recurso disponível deveria ser amplamente estudado, questionada e, por fim, preparado para utilização se e quando o cenário fosse para tal. A geoengenharia, ou seja, “a manipulação deliberada de aspectos físicos, químicos ou biológicos do ecossistema global na tentativa de confrontar as mudanças climáticas”, a partir da definição do Instituto de Engenharia, um dia poderá ser indispensável para a humanidade. De maneira simplificada, funcionaria no sentido de possibilitar o esfriamento do planeta e a diminuição da quantidade de carbono na atmosfera, tudo de maneira artificial.  

Entre as possíveis técnicas empregas pela geoengenharia, diversas parecem pouco ortodoxas. Cientistas analisam a possibilidade de instalar refletores para raios solares; fertilizar o oceano para aumentar a absorção de gás carbônico através de algas; criar árvores sintéticas que capturem mais gases que as naturais; e até mesmo provocar erupções vulcânicas. Acredito que só o simples exemplo das possíveis estratégias já serve para deixar muitos receosos e incertos da efetividade de tais medidas sem a contrapartida tão apregoada. A contrapartida, contudo, deveria ser o primeiro compromisso. Ainda não há um acordo internacional amplamente aceito para mitigar e controlar as mudanças climáticas. Uma grande parte disso se deve a grande querela internacional com relação a metas de redução de emissões de gases do efeito estufa. A geoengenharia, de qualquer forma, não pode ser a solução de todos nossos problemas.  

Não sou especialista no tema, mas essa discussão traz algumas reflexões inerentes. Primeiro, lembro de minhas aulas de biologia no ensino médio. Não havia casos em que ao tentar controlar um tipo de praga (um espécie em desequilíbrio com seu habitat) se acabava criando um novo problema na forma de um predador da antiga praga? Segundo, como funcionaria a implementação de tais medidas? Qualquer país teria autonomia para investir iniciativas de geoengenharia em seu território com ou sem a anuência da comunidade internacional? Por fim, o avanço nestes estudos não poderia gerar um efeito de paralisia na luta por um modelo mais limpo de desenvolvimento?  

A discussão é muito nova e segue em gestação. No entanto, a preocupação é genuína. Seguramente poucos seriam os países com a capacidade financeira e científica para trabalhar ativamente por soluções no campo da geoengenharia. Alguns temas impedem o egoísmo na comunidade internacional, exigindo um concerto entre diversas nações na forma de um acordo abrangente para tratá-los. As mudanças climáticas podem ser tomadas como o exemplo básico disso. No âmbito climático, uma ação tomada na Europa não estará circunscrita ao seu território, mas poderia gerar efeitos significativos em outro continente e vice-versa. Portanto, a solução deve ser global. Todos nós seguimos esperançosos que um dia, em uma COP qualquer, todos entendam de uma vez por todas que o grande passo para combater as mudanças climáticas seria pagar sua conta e aceitar sacrifícios em prol da humanidade. Isso deveria vir muito antes de técnicas da engenharia.  

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