Em cólera…

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Em cólera. É assim que a população haitiana se encontra atualmente. E essa afirmação pode ser entendida de duas formas: denotativamente, conforme tem sido noticiado internacionalmente, este país se encontra diante de um surto epidêmico de cólera com drásticas proporções. Conotativamente, todavia, percebe-se que o povo haitiano está enraivecido. Revoltando-se talvez contra o próprio destino que parece lhe pregar peças – trágicas, diga-se de passagem.

Depois do terremoto que afligiu o Haiti em janeiro deste ano (tratado em um ótimo post do Giovanni aqui no blog), o atual surto da doença no país denota uma situação de calamidade generalizada. Conseqüente, talvez, ainda do próprio terremoto – aliado à passagem do furacão Tomas que gerou mais desabrigados na região. Se, no início do ano, Edmond Mulet, representante da ONU no Haiti, afirmou que a situação estava abaixo do zero, esta escala precisaria ser novamente revista para atestar o atual momento. O vídeo abaixo ilustra a realidade haitiana:

Segundo o Ministério da Saúde do país, hoje este surto de cólera já provocou cerca de 1300 mortes, sendo que mais de 55 mil pessoas foram contaminadas (das quais aproximadamente 23 mil precisaram ser hospitalizadas). Os números são assustadores e mais assustador ainda é o fato de que aumentam exponencialmente a cada dia, dadas as dificuldades para a contenção da fatídica epidemia. Apesar de o tratamento ser relativamente simples – e mesmo diante dos apelos da Organização Mundial da Saúde –, a ONG Médicos Sem Fronteiras declarou publicamente considerar que o combate à epidemia tem sido inadequado, especialmente por conta da lentidão para a chegada de ajuda humanitária. Esta epidemia já começa, pois, a comprometer aos poucos também outras partes do mundo, a começar pela República Dominicana, país vizinho ao Haiti.

O caos instalado no Haiti parece, contudo, não gerar mobilização maior no âmbito internacional. A comoção divide espaço com a indiferença em um contexto de difícil solução. A imagem de uma vítima da doença sendo carregada ao hospital em um carrinho de mão (foto) vem justificar a conotativa cólera haitiana – expressa enquanto revolta – diante da situação. Revolta que tem se direcionado também contra os próprios capacetes azuis da ONU, acusados pela população como responsáveis pela entrada de cólera na localidade.

Resta aguardar as providências internas e internacionais que serão buscadas pelo Haiti durante os próximos dias em busca de sua almejada estabilidade social e política. Busca dificultada, já que as próprias eleições nacionais – previstas para o próximo domingo – acontecerão em tempos de cólera. Trata-se de um fator que gera incertezas aos vários candidatos presidenciais. E a todo o povo do Haiti, sem dúvidas.


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