Em cima do muro

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O que antes eram manifestações se converteu em guerra civil e, agora, tomou proporções internacionais. Uma coalizão de países, liderada por Estados Unidos, França e Reino Unido, decidiu intervir militarmente na Líbia, com a finalidade de proteger os cidadãos do país das tropas sanguinárias de Muamar Kadafi. Por enquanto, derrubar o polêmico tirano não faz parte dos planos, mas os objetivos da coalizão ainda não estão perfeitamente claros e podem ir além do estabelecimento de uma zona de exclusão aérea (no-fly zone), ou mesmo atravessar as fronteiras da Líbia, sob a discreta forma de intervenção humanitária. (Seguem dois artigos bastante explicativos sobre a Guerra na Líbia: aqui e aqui)

Ora, que ninguém se engane, se a política internacional fosse a arena do altruísmo, o mundo seria perfeito. Os interesses nacionais acabam falando mais alto, principalmente aqueles de natureza econômica e geopolítica. Fora da coalizão, mas igualmente interessado nos acontecimentos na Líbia, está o Brasil. A abstenção brasileira na votação da resolução do Conselho de Segurança da ONU que autorizou o estabelecimento da zona de exclusão aérea está muito longe de significar desinteresse na questão. Nosso país tem se pronunciado o tempo todo. Tenta agradar a gregos e troianos com um insustentável laissez-faire. E, assim, fica em cima do muro.

O Brasil condenou os ataques contra o povo líbio, promovido pelo seu próprio líder, mas discordou do tipo de abordagem com relação à questão. Para não causar mal-estar, absteve-se de votar. Qual seria a solução brasileira? O diálogo pacífico! Evidentemente, este seria o melhor caminho, se a situação não demandasse urgência. Rubens Ricupero, em recente artigo publicado na Folha de São Paulo, chegou a dizer que o Brasil faz o “melhor de dois mundos”, já que não se compromete e deixa os outros resolver o problema.

Uma situação como esta evidencia um despreparo do Brasil para assumir um posto permanente no Conselho de Segurança. Não adianta o ex-chanceler Celso Amorim escrever um artigo na Foreing Policy explicando por que os Estados Unidos deveriam apoiar a pretensão brasileira, ou o governo ficar todo excitado com o “apreço” de Obama – digno de míseras linhas de uma nota diplomática norte-americana – à inclusão do Brasil, manifestado com veemência hoje, em Manaus, pela presidenta Dilma. Não é apenas a nova realidade global do poder, a capacidade de estabelecer diálogo com todos os países do mundo ou a dimensão econômica do nosso país que carimbam as nossas credenciais para administração da segurança internacional. Quando as negociações fracassam, a fala cede espaço para a sorte das armas e as decisões se tornam inadiáveis.

Particularmente, manifesto-me favorável à reforma do Conselho de Segurança e gostaria de ver o Brasil incluído no órgão. No entanto, nossa conduta recorrente não tem passado de uma aventura homérica. Protestamos, discordamos e até sugerimos outras soluções, mas quando se trata de implementá-las, não temos força. O mundo árabe tem uma imagem positiva do Brasil, mas não há como falar e querer negociar se não tivermos capital político, econômico e, principalmente, militar à altura de nossa voz. Não há também como dizer “não” para os grandes ou tratar de igual para igual, de maneira clara, por exemplo, o sentido da intervenção na Líbia. Resta ficar em cima do muro.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


1 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

"Ora, que ninguém se engane, se a política internacional fosse a arena do altruísmo, o mundo seria perfeito."Realmente, infelizmente, efetivamente...Ótimo post! ;)