Em busca de um dote

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Há uma prática que sempre esteve muito arraigada na sociedade europeia. Herança dos tempos de expansão do império romano, a prática do dote consistia na doação à noiva, em período próximo ao casamento, de uma contribuição em bens ou em moeda, para que o casal iniciasse a vida a dois bem estabelecido e diminuísse os possíveis encargos.

Até hoje observa-se que há heranças de práticas sociais que não perdemos jamais. A França e a Inglaterra o têm demonstrado muito bem. Países que se encontram imersos em período de crise econômica que, ainda assola o mundo e a União Europeia, foram obrigados a cortar gastos.

E, logo, parte dessa dedução orçamentária afetaria o campo da defesa. França tem buscado desinflar os gastos estatais pela reforma da previdência, ainda assim, as opções são escassas. A Inglaterra está inserida nesse mesmo cenário de demanda de cortes. As opções eram escassas. Ou reduzem-se os gastos em outros setores, como a defesa nacional, ou investe-se em algo diferente. Um casamento talvez?

Sim, literalmente, uma espécie de matrimônio na área de defesa são os novos acordos militares e nucleares entre França e Inglaterra. Pela primeira vez, vê-se a criação de forças armadas bilaterais de atuação conjunta e uma cooperação sem precedentes na área nuclear, com direito a pesquisas e até áreas de testes de bombas unificada. O dote desse casamento seria uma melhor situação econômica, reduções de gastos de ambos os lados, e, de quebra, avanços mais rápidos na área da defesa, resultados de pesquisa conjunta.

O dote dessa vez não é dinheiro, mas economiza dinheiro e gera mais tecnologia, o que, na situação de França e Inglaterra, é muito positivo.Todavia, como em qualquer casamento, nem tudo são flores, e é preciso analisar algumas das consequências dessa ação inusitada.

Primeiramente, é importante questionar em que medida essa ação não representa uma oposição à atuação da OTAN, como força militar poderosa e influente na região. A organização que perdeu o antagonista, o Pacto de Varsóvia, com o declínio da tensão bipolar, apesar de aparentemente disfuncional, mantém bases, exércitos e influência na região toda. Assim, uma união de duas, das três potências nucleares do tratado, tem um valor bem significativo. Qual efeito que isso geraria em âmbito dos membros da OTAN?

Há de se considerar, ainda, a rejeição de supostas forças armadas europeias por Nicolas Sarcozy e David Cameron, o que, pode apontar para uma interessante tendência de pequenas alianças bilaterais em detrimento da elaboração de um arcabouço de defesa mais amplo na UE.

Esse casamento, como qualquer outro, gera dúvidas, incertezas e questionamentos. Apesar de o dote permitir aos dois países gozar de seu beneficio de imediato, apenas no longo prazo saber-se-á os frutos desse estranho matrimônio.


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